{"id":16626,"date":"2025-03-22T22:19:07","date_gmt":"2025-03-23T01:19:07","guid":{"rendered":"https:\/\/politicaeresenha.com.br\/?p=16626"},"modified":"2025-03-22T22:19:07","modified_gmt":"2025-03-23T01:19:07","slug":"deus-no-cotidiano-um-chamado-a-libertacao-e-a-justica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/politicaeresenha.com.br\/deus-no-cotidiano-um-chamado-a-libertacao-e-a-justica\/","title":{"rendered":"Deus no Cotidiano: Um Chamado \u00e0 Liberta\u00e7\u00e3o e \u00e0 Justi\u00e7a"},"content":{"rendered":"
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A liturgia do III Domingo da Quaresma nos convida a uma reflex\u00e3o profunda sobre a presen\u00e7a de Deus em nossa vida cotidiana e seu chamado insistente \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o e \u00e0 justi\u00e7a. Na Primeira Leitura (Ex 3,1-8a.13-15), somos transportados ao deserto, onde Mois\u00e9s, fugitivo da persegui\u00e7\u00e3o eg\u00edpcia, encontra Deus na sar\u00e7a ardente. Este n\u00e3o \u00e9 um encontro casual: Deus se revela diante das necessidades concretas do povo hebreu, escravizado no Egito, e convoca Mois\u00e9s para liderar sua liberta\u00e7\u00e3o rumo a uma terra onde corre leite e mel. Essa narrativa n\u00e3o \u00e9 apenas um relato hist\u00f3rico; ela ressoa como um apelo atual, desafiando-nos a reconhecer a a\u00e7\u00e3o divina em meio \u00e0s opress\u00f5es de nosso tempo e a assumir nosso papel na constru\u00e7\u00e3o de um mundo mais justo.<\/p>\n
Mois\u00e9s, um hebreu criado na corte do Fara\u00f3, j\u00e1 carregava em si a chama da indigna\u00e7\u00e3o contra a opress\u00e3o de seus irm\u00e3os. Quando matou um eg\u00edpcio que maltratava um hebreu e fugiu para o deserto (Ex 2,11-14), ele talvez pensasse que seu papel havia terminado. Mas \u00e9 exatamente ali, no deserto da fuga e da solid\u00e3o, que Deus o encontra. A sar\u00e7a que arde sem se consumir simboliza a presen\u00e7a divina que n\u00e3o se extingue, mas que se manifesta com vigor diante do sofrimento humano. Deus declara: \u201cEu vi a opress\u00e3o do meu povo no Egito, ouvi o seu clamor e conhe\u00e7o seus sofrimentos\u201d (Ex 3,7). Ele n\u00e3o \u00e9 um espectador distante; sua compaix\u00e3o o move a intervir, chamando Mois\u00e9s e conferindo-lhe poderes para libertar o povo.<\/p>\n
Essa revela\u00e7\u00e3o nos ensina que Deus est\u00e1 presente nas realidades mais dif\u00edceis de nossa vida. Ele n\u00e3o se limita a templos ou momentos solenes; sua voz ecoa nas periferias, nos clamores dos oprimidos, nas injusti\u00e7as que ferem a dignidade humana. Como a sar\u00e7a, sua presen\u00e7a arde em meio \u00e0s nossas crises, convidando-nos a ouvir e a agir.<\/p>\n
Ao se revelar, Deus n\u00e3o apenas se apresenta, mas tamb\u00e9m entrega a Mois\u00e9s seu nome: \u201cEu Sou o que Sou\u201d (Ex 3,14). Esse nome, enigm\u00e1tico e poderoso, est\u00e1 intrinsecamente ligado ao seu projeto de liberta\u00e7\u00e3o. Diferente dos deuses pag\u00e3os, criados e definidos pelos homens, Deus se autodefine como aquele que \u00e9 e que age em favor de seu povo. Ele promete: \u201cEu os adotarei como meu povo e serei o Deus de voc\u00eas, aquele que tira de cima de voc\u00eas as cargas do Egito\u201d (Ex 6,7). Sua identidade \u00e9 insepar\u00e1vel de sua miss\u00e3o: trazer vida e dignidade onde reinam a opress\u00e3o e a morte.<\/p>\n
Esse projeto n\u00e3o se esgota na sa\u00edda do Egito. Pelos profetas, como em Isa\u00edas 65,17-25, Deus anuncia um futuro de \u201cnovo c\u00e9u e nova terra\u201d, onde n\u00e3o haver\u00e1 mais choro, morte prematura ou injusti\u00e7a, e onde o trabalho humano ser\u00e1 respeitado e frut\u00edfero. Jesus, em perfeita comunh\u00e3o com o Pai, reafirma essa promessa ao dizer: \u201cEu vim para que todos tenham vida e a tenham em abund\u00e2ncia\u201d (Jo 10,10). Seu minist\u00e9rio, descrito em Mateus 9,35-38, o leva aos exclu\u00eddos \u2014 povoados e periferias \u2014, onde ele se compadece das multid\u00f5es \u201ccansadas e abatidas como ovelhas sem pastor\u201d e convoca mais pessoas para sua miss\u00e3o de transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n
A Igreja, como continuadora da obra de Cristo, \u00e9 chamada a viver esse projeto de liberta\u00e7\u00e3o integral. O Papa Francisco, na Evangelii Gaudium<\/em>, nos lembra que \u201ca religi\u00e3o n\u00e3o deve limitar-se ao \u00e2mbito privado\u201d (EG, 182). Sua atua\u00e7\u00e3o deve ser prof\u00e9tica, comprometida com os empobrecidos e desvinculada dos poderes opressores deste mundo. Na Am\u00e9rica Latina e no Caribe, onde as desigualdades gritam, os crist\u00e3os s\u00e3o desafiados a iluminar todos os \u00e2mbitos da vida social com a luz do Evangelho. O Documento de Aparecida sublinha que \u201ca op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres exige aten\u00e7\u00e3o pastoral voltada aos construtores da sociedade\u201d (DA, 501), destacando que a persist\u00eancia da pobreza reflete, em parte, a infidelidade de crist\u00e3os em posi\u00e7\u00f5es de poder aos valores evang\u00e9licos.<\/p>\n Ser povo de Deus, como nos exorta 1 Pedro 2,9-12, significa viver como \u201cra\u00e7a eleita, sacerd\u00f3cio r\u00e9gio, na\u00e7\u00e3o santa\u201d, comprometidos com um mundo onde n\u00e3o haja opress\u00e3o, onde a justi\u00e7a e o amor ao pr\u00f3ximo sejam a norma. N\u00e3o lutar por essa realidade \u00e9 profan\u00e1-la, \u00e9 desonrar o nome de Deus, que se revelou como libertador.<\/p>\n O Evangelho deste domingo (Lc 13,1-9) refor\u00e7a essa urg\u00eancia. Jesus, ao comentar as trag\u00e9dias de seu tempo, questiona se elas s\u00e3o castigos divinos ou frutos de estruturas injustas. Sua resposta \u00e9 clara: \u201cSe voc\u00eas n\u00e3o se converterem, v\u00e3o perecer todos do mesmo modo\u201d. O pecado n\u00e3o \u00e9 apenas um ato isolado; \u00e9 uma rede que nos envolve a todos, e a indiferen\u00e7a diante das injusti\u00e7as nos torna c\u00famplices. A par\u00e1bola da figueira est\u00e9ril nos alerta: Deus, como o dono da vinha, nos d\u00e1 novas chances, investindo em n\u00f3s com paci\u00eancia. Mas o tempo \u00e9 finito, e cabe a n\u00f3s produzir frutos de justi\u00e7a e solidariedade.<\/p>\n Paulo, na Segunda Leitura (1Cor 10,1-6.10-12), adverte contra a falsa seguran\u00e7a religiosa. Muitos receberam os cuidados de Deus no deserto, mas, por falta de compromisso, n\u00e3o entraram na terra prometida. O chamado \u00e0 convers\u00e3o \u00e9, portanto, um convite a viver em comunh\u00e3o com Deus e com os irm\u00e3os, rejeitando a explora\u00e7\u00e3o e a indiferen\u00e7a.<\/p>\n A liturgia do III Domingo da Quaresma nos desafia a reconhecer Deus no cotidiano, nas dores e nas esperan\u00e7as de nosso tempo. Ele nos chama, como chamou Mois\u00e9s, a sermos instrumentos de sua liberta\u00e7\u00e3o, lutando contra as \u201ccargas do Egito\u201d que ainda oprimem tantos irm\u00e3os e irm\u00e3s. Que nossa convers\u00e3o seja concreta, traduzida em a\u00e7\u00f5es que promovam justi\u00e7a e dignidade. Que sejamos como a sar\u00e7a ardente: inflamados pelo amor divino, mas n\u00e3o consumidos pelo ego\u00edsmo. Assim, produziremos frutos abundantes para o Reino de Deus, tornando-nos verdadeiramente um povo que celebra e vive as maravilhas de seu Nome.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":" A liturgia do III Domingo da Quaresma nos convida a uma reflex\u00e3o profunda sobre a presen\u00e7a de Deus em nossa vida cotidiana e seu chamado insistente \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o e \u00e0 justi\u00e7a. Na Primeira Leitura (Ex 3,1-8a.13-15), somos transportados<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":16627,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[3],"class_list":["post-16626","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-igreja","tag-destaque"],"yoast_head":"\nConvers\u00e3o: Um Chamado Urgente<\/h2>\n
Conclus\u00e3o: Frutos para o Reino<\/h2>\n