
(Padre Carlos)
A recente decisĂŁo do Tribunal Regional Eleitoral (TRE), que cassou o mandato de Natan da Carroceria e determinou a recontagem dos votos do partido Avante, nĂŁo Ă© apenas uma medida jurĂdica — Ă©, sobretudo, um abalo na representação simbĂłlica e concreta das periferias de VitĂłria da Conquista. O que está em jogo nĂŁo Ă© somente um assento na Câmara, mas a voz de bairros historicamente esquecidos como o Coveima e a PatagĂ´nia. Viva Natan! Viva o povo que, com suor e esperança, ousou acreditar na polĂtica.
NĂŁo se discute aqui o rigor da lei eleitoral. A denĂşncia da Federação Brasil da Esperança, que apontou a utilização de uma candidatura fictĂcia pelo Avante para atingir a cota de gĂŞnero, encontrou respaldo jurĂdico. A candidata laranja, de fato, nĂŁo teve movimentação de campanha, nem contas registradas, nem presença nas redes sociais — e isso, convenhamos, nĂŁo passa incĂłlume pelo crivo da legalidade. Mas a pergunta que grita Ă©: quem está sendo punido de fato?
Natan, liderança forjada na labuta, nas feiras, nas rodas de conversa nos bairros mais humildes, acaba penalizado pelos erros alheios. E mais do que ele, Ă© seu eleitorado que sente o peso de uma decisĂŁo que, embora legal, soa como injusta do ponto de vista social e polĂtico. O Coveima e a PatagĂ´nia nĂŁo tĂŞm representação fácil. Quando conseguem eleger alguĂ©m que conhece suas dores, logo o tapete Ă© puxado, nĂŁo por má conduta pessoal, mas por artimanhas partidárias que ele prĂłprio pode nĂŁo ter tido controle.
Aqui reside o drama: enquanto figuras da elite polĂtica escapam ilesas de acusações muito mais graves, um representante popular vĂŞ seu mandato ruir por erros que, em muitos casos, sĂŁo fabricados nos bastidores e atribuĂdos coletivamente. A polĂtica brasileira, em sua engenharia institucional, ainda nĂŁo aprendeu a proteger os votos da periferia com o mesmo zelo com que protege os dos gabinetes refrigerados.
Gabriela Garrido, que deve assumir a vaga, é uma candidata do Partido Verde, ligada à Federação Brasil da Esperança. Não se questiona sua legitimidade eleitoral, tampouco sua competência. Mas é inegável que a substituição de Natan por ela muda completamente o perfil da representação. Sai o homem das feiras, entra a delegada. Sai o povo, entra a burocracia. Sai o grito do gueto, entra a fala técnica.
Se Natan conseguir recorrer com sucesso ao TSE atĂ© o dia 25, poderá reverter esse cenário. Mas, independentemente do resultado, a mensagem está dada: nossos sistemas precisam urgentemente de mecanismos que diferenciem erro partidário de culpa individual. Precisamos de uma Justiça Eleitoral que saiba equilibrar a balança entre a letra da lei e o espĂrito da democracia.
Porque, no fim das contas, quando Natan cai, nĂŁo Ă© apenas um polĂtico que perde o cargo. É o Coveima que perde um rosto. É a PatagĂ´nia que perde uma voz. E Ă© o povo, mais uma vez, que perde a esperança. Viva Natan! Viva o povo da periferia!




