Política e Resenha

Política e futebol: Rui anuncia, mas esquece de combinar com Otto

Por Padre Carlos

Há frases que atravessam décadas e continuam explicando a política melhor do que qualquer manual de ciência política. Uma delas nasceu nos vestiários da Copa de 1958, quando o técnico Vicente Feola, entusiasmado com seu plano estratégico, explicou minuciosamente aos jogadores como vencer a poderosa União Soviética. Garrincha, distraído e genial, ouviu, pensou um pouco e perguntou com simplicidade desconcertante: “Tá legal, seu Feola… mas o senhor já combinou com os russos?”

Essa lembrança me veio imediatamente à cabeça quando li a declaração do ministro Rui Costa: “Já dei ciência ao presidente Lula de que serei candidato ao Senado. Deixarei o cargo no início de abril, conforme prevê a lei.” Pois é, Rui, o senhor já combinou com os “russos”? E aqui os “russos” têm nome e sobrenome: Otto Alencar, o PSD, e toda a base aliada na Bahia que, como sabemos, é um campo minado de egos, projetos e vaidades.

A política, assim como o futebol, é um jogo coletivo. Não basta ter a melhor jogada desenhada no quadro. É preciso combinar com quem está em campo — e, principalmente, com quem tem a bola. Rui pode até já ter avisado Lula, mas será que Otto aceitou o drible? Será que o PSD, que hoje é um pilar importante da base baiana, vai assistir de camarote à sua candidatura sem reagir?

O governador Jerônimo Rodrigues, por sua vez, será o “técnico” dessa partida complicada. Terá de equilibrar o elenco, distribuir posições e evitar que o vestiário se divida. Porque, como ensinou Garrincha, planejamento sem acordo é só teoria. Política sem articulação é chute para fora.

Rui Costa é habilidoso, sem dúvida. Tem lastro político, experiência e capital eleitoral. Mas em 2026 o jogo será mais duro do que parece. Otto é jogador experiente, desses que não aceitam sair de campo sem brigar pela bola. E há outros atletas esquentando no banco, de olho nas duas únicas vagas ao Senado.

Portanto, Rui, a pergunta que ecoa no vestiário político da Bahia é a mesma que Garrincha fez há 67 anos: o senhor já combinou tudo isso com os russos?