
Por Padre Carlos
Em um país que assiste, impotente, ao concreto engolir o passado, Vitória da Conquista protagonizou, nesta noite em 18 de novembro, um raro instante de lucidez coletiva. Enquanto tantas cidades trocam suas lembranças por estacionamentos e fachadas de vidro, o antigo prédio da Câmara de Vereadores — erguido em 1910 pelas mãos calejadas do mestre Luiz Pedreiro — deixou de ser apenas arquitetura para tornar-se o Memorial Manoel Fernandes de Oliveira. E com esse gesto simbólico, a cidade se insurgiu contra o esquecimento planejado que tantos chamam de “progresso”.
Memorial é um verbo disfarçado: não esquecer. É o mesmo sentido profundo da Missa — quando se atualiza a Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo; é o que fazemos no aniversário de casamento quando repetimos o “sim” com mais consciência do que na primeira vez. Preservar é continuar amando. Foi isso que a Câmara de Vereadores, sob a liderança do presidente Ivan Cordeiro, ousou fazer: assumir responsabilidade histórica antes que a memória virasse entulho ou vaga de estacionamento. Aplausos merecidos — preservar patrimônio público, identidade cultural e memória urbana é quase um ato revolucionário em tempos de miopia institucional.
Ouvir Dona Irma, primeira mulher a presidir a Casa, foi um bálsamo em meio ao deserto de indiferença histórica brasileira. Quando ela disse “É nossa paixão”, não estava falando de paredes; estava falando de pertencimento. E pertencimento é a fronteira entre uma cidade viva e uma cidade mutilada por espigões sem alma. Quem não ama o que foi dificilmente respeitará o que é. Identidade cultural, história local e memória coletiva — palavras essenciais para qualquer motor de busca — estavam ali vivas, encarnadas.
O vereador Luís Carlos Dudé (UB) sonhou grande — transformar o memorial no grande museu da política conquistense — e seu sonho ecoou nas palavras de Fernando Vasconcelos, que lembrou: preservar é também enaltecer a cultura viva. Naquela mesma noite, o artista Silvio Jesse expunha telas que pulsavam a alma conquistense. Tudo convergia para um consenso raro: Conquista não pode mais permitir que os seus casarões históricos virem estacionamentos. A prefeita Sheila Lemos, com a sensibilidade que até adversários reconhecem, parece ter entendido o recado.
E então levantou-se Élquisson Soares. — o deputado eterno — para lembrar que memória também exige coragem moral. Em plena festa, ele jogou a realidade na mesa: o orgulho de Ubirajara Pereira de Brito, o Nego Bira — “Conquista é uma cidade grande sem favela” — está ameaçado. Nas encostas do Cristo, cartão-postal e símbolo turístico, cresce silenciosamente uma mancha de miséria. “Fui lá e saí arrasado”, disse Elson. E pediu que todos — vereadores, prefeita, sociedade — fossem ver com os próprios olhos antes que seja tarde.
A verdade é simples e incômoda: o maior patrimônio da cidade é o seu povo. Um memorial vazio de vida se torna apenas museu de coisas mortas.
Eis o ponto cego da crise democrática: ela nasce da amnésia coletiva. Quem esquece de onde veio não sabe para onde vai. Quando se derruba o passado para construir vaga de carro, está se dizendo — sem palavras — que a história não vale o preço do metro quadrado. Uma cidade que aceita isso está aceitando, aos poucos, tornar-se irrelevante — econômica, cultural e espiritualmente.
Vitória da Conquista, naquela noite histórica, escolheu lembrar. Escolheu afirmar que memória urbana, patrimônio cultural, preservação histórica e cidadania pertencem ao mesmo dicionário da dignidade. Escolheu tombar o prédio da Câmara — e, com ele, tombar-se contra o esquecimento. Mas o gesto só será completo se, junto com as paredes centenárias, proteger também as encostas do Cristo e as pessoas que lá vivem. Porque memória não é apenas passado: é compromisso com o futuro.
Que o Memorial Manoel Fernandes de Oliveira não seja apenas belo. Que seja um alerta permanente: quem abandona sua história e seu povo está condenado a repetir os mesmos erros.
Conquista, estejamos atentos.
A memória agradece — e o futuro depende disso.




