Existência & Condição Humana
Eu sei que sou só.
E não aceito.
Há verdades que a inteligência compreende e o coração se recusa a assinar. Esta é uma delas.
Quando alguém de certa idade me olha nos olhos e diz, com aquela voz que já não teme tanto o ridículo, “sabe, eu me sinto muito só” — algo em mim trava. Não de pena. Não de embaraço. Trava de reconhecimento. Porque naquele rosto vejo alguém que ainda não se conformou. E eu penso: bem-vindo ao clube dos que sabem e, mesmo assim, resistem.
A filosofia já resolveu isso. Ou julgou que resolveu. Existe até um nome bonito para o fenômeno: a condição ontológica do ser. Cada consciência é uma ilha. Você nasce dentro de uma pele que é inteiramente sua, de uma cabeça que nunca poderá ser habitada por outra pessoa, de um silêncio interior que não tem janelas. Por mais que se ame, por mais que se abrace, a última milha de você mesmo — essa camada mais profunda, aquela parte que dói de madrugada ou que ri de uma coisa e não sabe explicar por quê — essa parte é irremediavelmente sua. Só sua. Para sempre só sua.
“Quando a solidão deixa de ser angústia e vira aceitação, dizem, você amadureceu. Mas e se recusar for também uma forma de estar vivo?”
— O paradoxo da resistência
Bem. Eu entendo isso tudo. Entendo de verdade, não só com as palavras. Entendo com aquela compreensão que acontece num momento inesperado — num quarto de hotel, numa festa barulhenta, no meio de uma conversa com alguém que te ama e que, mesmo assim, não consegue entrar. Eu sei que a solidão não é ausência de pessoas. Sei que é a condição básica de existir como indivíduo. Sei que é estrutural, que é permanente, que não tem solução porque não é um problema.
E não aceito.
Não aceito com a mesma teimosia com que a gente continua amando mesmo sabendo que o amor é frágil. Com a mesma irracionalidade com que planta uma árvore mesmo sabendo que pode não ver ela crescer. Tem coisas que a gente sabe e que, mesmo assim, a gente se recusa a internalizar como verdade final — porque internalizar seria se render a uma versão do mundo que dói demais para ser o fim da conversa.
Uma festa. Barulho por todos os lados. Ao seu redor, pessoas que você conhece, algumas que você ama. E de repente, no meio do ruído todo, uma quietude interna que ninguém mais ouve. Você está completamente acompanhado. E completamente só.
Não é tristeza. É reconhecimento. A sensação de que o último metro de você mesmo é sempre território exclusivo.
Me dizem: “quando você descobre que a solidão é uma contingência do viver, ela deixa de ser angústia e passa a ser aceitação.” Ouço isso e penso: mas a que custo? A aceitação que se alcança ao preço de parar de esperar pelo outro — de parar de querer ser, de vez em quando, completamente visto — é sabedoria ou é resignação com nome mais digno?
“Entre a ilusão impossível e a aceitação fria, existe um território que me interessa: o da busca, o do gesto que tende ao outro mesmo sabendo que nunca chega de todo.”
Território da recusa corajosa
Não estou defendendo a ingenuidade. Sei que ninguém pode morar dentro de mim. Sei que a ilusão de fusão total entre duas pessoas é isso: ilusão. Mas entre a ilusão impossível e a aceitação fria, existe um território que me interessa muito mais: o da busca. O da tentativa. O do gesto que tende ao outro mesmo sabendo que nunca chega de todo solidão
Aquela pessoa que me confessa a solidão com os olhos um pouco úmidos — ela não está me pedindo para resolver. Não está esperando que eu lhe diga que a solidão é normal, que é filosófica, que é condição humana. Ela está me dizendo que ainda sente falta. Que o mundo ainda lhe parece grande demais e ela ainda lhe parece pequena demais para preenchê-lo sozinha. E nisso — precisamente nisso — eu a reconheço. Porque eu também não me conformei.
Talvez a maturidade real não seja aprender a se bastar. Talvez seja aprender a conviver com a falta sem que ela te paralise — mas sem fingir que ela não existe. Talvez seja saber que você é só, e continuar ligando pro telefone assim mesmo.
“Enquanto eu ainda espero, ainda quero, ainda estranho a ausência do outro — ao menos isso me diz que ainda estou aqui, inteiro, incomodado, vivo.”
Então não. Eu não aceito a solidão como destino arrumado e quieto. Aceito-a como dado, como peso, como companheira silenciosa que vai junto de qualquer jeito — mas não como resposta. Não como ponto final. Porque enquanto eu ainda espero, ainda quero, ainda estranho a ausência do outro — ao menos isso me diz que ainda estou aqui, inteiro, incomodado, vivo.
E talvez seja esse o único antídoto que existe: não a aceitação, mas a recusa corajosa de deixar de querer companhia.
Artigo de Opinião
Solidão · Condição Humana




