Política & Resenha — Opinião
Oh, que choque! Jerônimo ficou surpreso
Quando o governador descobre que governar exige mais do que tomar sustos em entrevista coletiva

Por Padre Carlos | Vitória da Conquista, 25 de abril de 2026
A
ssim que li a manchete, precisei reler. Uma vez. Duas. Três. “Jerônimo critica troca de aeronaves da Azul e cobra respeito a Vitória da Conquista.” Fiquei eu também surpreso — não com a Azul, cujo pragmatismo empresarial é tão previsível quanto o pôr do sol no sertão, mas com o espetáculo de um governador do estado mais rico do Nordeste descobrindo, em coletiva de imprensa na cidade de Brumado, que uma empresa aérea tomou uma decisão comercial sem lhe pedir licença. Que drama. Que tragédia grega. Que cena.
A Azul Linhas Aéreas — empresa privada, movida por lucro, guiada por planilhas — anunciou que substituirá o ATR 72, de 72 assentos, pelo Cessna Grand Caravan, com espaço para nove almas corajosas dispostas a cruzar os céus do Sudoeste Baiano como em tempos de Lampião. A reação institucional do governador Jerônimo Rodrigues Souza foi a que qualquer cidadão deveria esperar de um representante eleito: ele ficou chocado. Profundamente chocado. Moralmente indignado. E nos comunicou esse choque com a solenidade de quem acaba de descobrir que a Terra é redonda.
“Nós não vamos aceitar que Vitória da Conquista seja tratada dessa forma.”
— Jerônimo Rodrigues, em declaração memorável à imprensa
Não vão aceitar. Categórico. Contundente. Vibrante. Só faltou a trilha sonora e os fogos de artifício. Pois bem, Excelência: a Azul já aceitou. É ela quem opera os aviões, é ela quem decide a rota, é ela quem faz a conta entre receita e custo. E, diante desse implacável teorema do capitalismo, o governador saiu da coletiva de imprensa armado de indignação — aquele instrumento tão útil quanto uma espingarda de água numa floresta em chamas.
Esta atitude seria trágica se não fosse cômica. E seria cômica se não fosse reveladora. Ela revela um traço que, infelizmente, tem marcado certa cultura de gestão pública no Brasil: a confusão entre governar e protestar. O governante que perde tempo ficando chocado diante de uma decisão empresarial está, na prática, terceirizando sua função executiva para os microfones. Está fazendo o papel do torcedor — aquele que grita da arquibancada, bate no peito, aponta o dedo para o campo, mas jamais entra em campo.
Governador não é pra se indignar. Governador é pra trabalhar. Sentar com a empresa. Abrir a planilha. Oferecer incentivos fiscais, isenções, contrapartidas que tornem a rota viável e atrativa. Mapear outras companhias aéreas interessadas no Aeroporto Glauber Rocha — afinal, o mercado da aviação regional no Brasil é dinâmico e a ANAC não é uma entidade mística inacessível. Ligar para a LATAM, para a Gol, para quem quer que opere aviões com mais de nove assentos. Isso seria governar. Isso seria executar. Isso não gera manchete edificante, é verdade — mas gera resultado.
O papel de ficar chocado, contrariado, vociferante e indignado já tem dono nas democracias: chama-se parlamento. Deputados e vereadores existem exatamente para isso — para fazer barulho, para cobrar, para pressionar, para subir o tom. É a função deles. É pra isso que o povo os elege. O governador tem outra função: a chata, silenciosa, cotidiana e absolutamente indispensável função de resolver.
Mas há algo esteticamente perfeito na cena. Ali estava o governador da Bahia, em Brumado, sendo abordado sobre o Cessna de nove lugares que ameaça substituir o voo para Salvador — e ele ficou surpreso. Surpreso! Como se a decisão tivesse caído do céu de paraquedas naquela manhã de sexta-feira. Como se ninguém em seu secretariado, em sua assessoria técnica, em seu gabinete de desenvolvimento econômico houvesse acompanhado os movimentos da Azul Conecta, empresa que há meses reorganiza suas rotas regionais pelo interior do Brasil. A surpresa, num chefe do Executivo estadual, não é um sinal de humanidade. É um sinal de desacompanhamento.
Já os demais personagens desta pequena ópera cômica completam o cenário com esmero. O empresário e ex-prefeito de Dom Basílio, entusiasta da aviação, declarou que Conquista está “abandonada”. O vereador Luís Carlos Dudé, do União Brasil, fustigou o “teco-teco” e evocou um retrocesso de oitenta anos. Certo. Legítimo. Barulhento. É o que parlamentares fazem — e fazem bem. Que gritem. Que pressionem. É a função deles, e exercem-na com vigor admirável.
O problema é quando o governador decide brincar de parlamentar. Quando o Executivo abandona o árido território da negociação técnica e vai disputar espaço nos microfones com quem foi eleito para isso. Resultado: muito barulho, nenhuma rota nova, nenhum assento a mais. O Cessna continua no hangar, esperando decolar com seus nove passageiros — enquanto o governador espera que a Azul leia o jornal e se envergonhe.
Vitória da Conquista — a Terra do Radialista Herzem Gusmão, como o blog irmão a celebra com carinho regionalista — é de fato a terceira maior cidade da Bahia. Merece conectividade aérea digna. Merece um aeroporto Glauber Rocha pulsante, com frequências, companhias e assentos. Merece, sobretudo, um gestor estadual que não precise descobrir em coletiva de imprensa que uma empresa privada age como empresa privada. Isso a cidade merece — e ainda não tem.
Enquanto o governador aguarda que a Azul se comova com seu discurso e reponha os 63 assentos que pretende subtrair, o Cessna segue lá, pequenino, novecentas vezes mais honesto do que qualquer declaração pública: ele simplesmente vai. Sem barulho. Sem manchete. Sem choque. Com nove lugares e uma turbina. É modesto, é insuficiente, é inaceitável — mas vai. Talvez fosse uma boa metáfora para o que Vitória da Conquista precisa do seu governador: menos espanto, mais motor.
Padre Carlos
Teólogo, colunista político & editor do Política e Resenha — Vitória da Conquista, Bahia
As opiniões expressas neste artigo são de inteira responsabilidade do autor e não representam, necessariamente, a posição de qualquer partido, diocese ou companhia aérea de pequeno porte.




