Política e Resenha

A Eleição de 2026 Será Uma Guerra Política de Alta Voltagem


Política e Resenha  ·  Análise Eleitoral

A Bahia Entrou em Campo

A Eleição de 2026 Será Uma Guerra Política de Alta Voltagem

Por Padre Carlos

Há momentos na política em que o ar muda antes mesmo da tempestade chegar. O que se observa na Bahia desde o segundo semestre de 2024 não é ainda a batalha — é o rearranjo silencioso das tropas, o afiar das espadas, o cálculo dos generais.

Mas todo veterano de eleições sabe reconhecer os sinais: 2026 não será uma disputa qualquer. Será uma guerra. E guerras, como se sabe, não se vencem apenas com exércitos. Vencem-se com narrativas.

O Trovão de 2022

 

 

 

Os números daquele outubro ainda ecoam nos bastidores da política baiana com a força de um trovão que não dissipou. Jerônimo Rodrigues cruzou a linha de chegada com pouco mais de 52% dos votos. ACM Neto, derrotado mas longe de destruído, ultrapassou os 47%. Para um estado onde o lulismo possui raízes quase telúricas — enraizadas na cultura do interior, na memória da fome, na gratidão pelos programas sociais — essa margem revelou algo que muitos não queriam admitir:

“O PT pode ser derrotado na Bahia.”

Ruptura sísmica no imaginário político baiano

Não é uma conclusão trivial. É uma ruptura sísmica no imaginário político baiano. Durante quase duas décadas, o domínio petista no estado pareceu natural, quase geológico, como o rio São Francisco correndo para o mar. A eleição de 2006, que conduziu Jaques Wagner ao Palácio de Ondina, inaugurou um ciclo de hegemonia que sobreviveu a crises nacionais, a impeachments, a escândalos e a reviravoltas. Sobreviveu a tudo — menos ao tempo. E o tempo, na política, é sempre o adversário mais implacável.

A Lição Que a Oposição Aprendeu

Há um paralelo histórico que merece atenção. O raciocínio que Jaques Wagner utilizou há vinte anos para desmontar o carlismo — unificar o campo adversário, ampliar a coalizão, capturar o eleitor de centro — é precisamente a lógica que agora move a oposição contra o PT baiano. Em 2022, o campo conservador chegou dividido ao segundo turno. João Roma disputou espaço com ACM Neto e sangrou votos decisivos da direita. Agora, a reunificação desse campo cria uma musculatura eleitoral que simplesmente não existia antes.

Não se trata de preferência ideológica. Trata-se de aritmética política básica: eleição é soma de forças, e ACM Neto parece ter compreendido isso antes de seus adversários.

Mas talvez o movimento mais carregado de significado simbólico tenha sido a aproximação do senador Angelo Coronel ao grupo oposicionista. Lideranças com mandato, experiência acumulada e densidade regional não trocam de campo por impulso. Quando o fazem, o sinal que enviam ao eleitorado é mais poderoso do que qualquer pesquisa ou declaração pública. Fissuras começaram a surgir. E fissuras, quando expostas à luz, tornam-se rachaduras.

Dado Eleitoral Decisivo

Em 2022, Lula obteve mais de 72% dos votos no segundo turno presidencial na Bahia, enquanto Jerônimo ficou em torno de 52%. A diferença revela que uma parcela significativa do eleitorado lulista votou simultaneamente em ACM Neto para governador — inclusive em Vitória da Conquista e Feira de Santana, os dois maiores colégios eleitorais do interior.

O Desgaste Silencioso do Poder

Existe um fator que os analistas raramente nomeiam com clareza, talvez por ser difícil de quantificar: o cansaço. Governos longos acumulam realizações, é verdade. Mas acumulam também ressentimentos, promessas não cumpridas, expectativas frustradas e uma sensação difusa de que tudo poderia ter sido diferente. A população não vota apenas contra projetos políticos. Às vezes, vota contra a imagem de um rosto que já viu por tempo demais.

Vitória da Conquista conhece bem essa dinâmica. Guilherme Menezes deixou a prefeitura com índices de aprovação elevados — e ainda assim seu sucessor partidário perdeu para a oposição. O eleitor, muitas vezes, não rejeita quem governou. Rejeita a ideia de que nada vai mudar. A promessa de renovação, mesmo quando vaga, mesmo quando abstrata, possui uma força psicológica que estruturas partidárias consolidadas custam a compreender.

“Eleições, mais do que qualquer outra coisa, são fenômenos emocionais. Segurança pública, saúde, infraestrutura e a sensação de lentidão administrativa alimentam um sentimento crescente de inquietação.”

O Paradoxo Lulista

 

Seria, no entanto, um erro grave — e politicamente suicida — reduzir a disputa a uma simples vantagem oposicionista. O PT continua sendo uma potência eleitoral de primeira grandeza na Bahia. Lula mantém uma influência que transcende a política convencional neste estado: é quase uma identidade coletiva para milhões de baianos mais pobres, especialmente no interior profundo.

Esse dado não é apenas uma curiosidade estatística. Ele se tornou o coração da estratégia oposicionista para 2026. O eleitor popular exerce sua soberania com uma sofisticação que os analistas costumam subestimar. Ele sabe o que quer de Brasília e o que quer de Salvador. E nem sempre quer a mesma coisa.

A pergunta que definirá 2026 é esta: ACM Neto conseguirá preservar esse eleitorado híbrido — lulista para o Planalto e oposicionista para o Palácio de Ondina? Se mantiver essa conexão emocional com o eleitor popular, suas chances são reais e sólidas. Se for arrastado para uma polarização dura, que transforme a eleição estadual em um referendo sobre Lula, perde o jogo antes de começar.

Ponto Estratégico

Por isso, a sirene da radicalização é um canto que ele não pode seguir. A sedução da trincheira ideológica pode parecer fortalecedora — e frequentemente destrói quem a abraça.

A Bahia Que Surpreende

Há uma lição histórica que não pode ser ignorada por nenhum dos lados. A Bahia já surpreendeu o Brasil outras vezes, e o fez precisamente nos momentos em que a surpresa parecia impossível. Em 2022, diversas pesquisas apontavam favoritismo consistente de ACM Neto nas semanas que antecederam o primeiro turno. A arrancada petista, impulsionada pela identificação visceral entre Jerônimo e Lula, desfez prognósticos consolidados em poucas semanas.

O eleitor baiano costuma decidir tarde. E quando decide, muda o jogo inteiro. Institutos como Séculus, Veritá e Real Time Big Data têm registrado crescimento da intenção de voto oposicionista e aumento da rejeição ao atual governo estadual. Mas pesquisa de 2025 não é resultado de outubro de 2026. O mapa eleitoral baiano é vivo, poroso, sensível às marés da conjuntura nacional e às emoções do cotidiano local.

O Plebiscito Que Se Aproxima

 

O que se desenha para 2026 não é apenas uma eleição. É um plebiscito sobre o futuro da Bahia. Uma escolha entre a continuidade de um projeto político que moldou o estado durante quase vinte anos e a aposta numa mudança cujos contornos ainda estão sendo definidos.

E essa escolha será feita por um eleitor que não é passivo, não é ingênuo e não é facilmente capturável por discursos de cima para baixo. É um eleitor que carrega no corpo as marcas da desigualdade e no coração a memória de conquistas reais. É um eleitor que pode ser lulista e oposicionista ao mesmo tempo, sem se sentir contraditório, porque a vida concreta exige mais do que a ideologia pode oferecer.

2026 começou antes da hora. A tensão já ocupa os bastidores, as alianças se aceleram, os movimentos de bastidores antecipam uma disputa feroz. O eleitorado entrou em estado de atenção.

Conclusão

Numa Bahia que carrega séculos de luta, esperança e decepção sedimentados em sua alma política, o sentimento coletivo pode valer — como sempre valeu — mais do que qualquer estrutura, qualquer dinheiro ou qualquer marqueteiro.

A guerra ainda não começou. Mas os tambores já se ouvem ao longe.

PC

Padre Carlos

Teólogo, sacerdote e colunista. Escreve para o Política e Resenha, cobrindo política baiana, história e reflexão teológica. Vitória da Conquista, Bahia.