Política e Resenha

O Vento, a Ausência e o Fogo

O Vento, a Ausência e o Fogo

Padre Carlos

Há uma frase de que gosto muito. Volto a ela de vez em quando, sobretudo quando a vida me coloca diante de uma ausência, de uma despedida ou daqueles silêncios que chegam sem pedir licença. É uma frase antiga, escrita há quase quatro séculos, mas que, curiosamente, parece conhecer muito bem os sentimentos que ainda carregamos hoje.

Ela pertence a um escritor francês do século XVII chamado François de La Rochefoucauld, autor de Maximes (Máximas), obra publicada pela primeira vez em 1665. La Rochefoucauld viveu em um tempo muito distante do nosso, quando a França era outra, quando as relações humanas obedeciam a outros códigos e quando o mundo ainda estava muito longe da velocidade com que hoje vivemos, amamos, esquecemos e substituímos as coisas.

E, no entanto, quando leio suas palavras, tenho a impressão de que ele está falando comigo.

Talvez porque algumas verdades sobre o coração humano não envelheçam.

I. O vento que apaga velas e atiça fogueiras

La Rochefoucauld escreveu originalmente, em francês:

“L’absence diminue les médiocres passions, et augmente les grandes, comme le vent éteint les bougies, et allume le feu.”

Em português, a tradução mais conhecida diz:

“A ausência diminui as paixões medíocres e aumenta as grandes, como o vento apaga as velas e atiça as fogueiras.”

Sempre que leio essa frase, fico pensando no poder estranho que a ausência exerce sobre nós.

Porque a ausência não é apenas a falta de alguém.

Às vezes, ela é uma espécie de revelação.

II. O espaço que só a ausência revela

Quando alguém está perto, eu posso me acostumar com sua presença. Posso deixar de perceber o valor de uma conversa, de um abraço, de uma voz, de uma companhia. O cotidiano tem esse poder silencioso de transformar o extraordinário em rotina.

Enquanto a pessoa está ali, eu sei que ela está ali.

Parece simples.

Mas não é.

É somente quando ela parte que começo a compreender o tamanho do espaço que ocupava em mim.

É como se a ausência retirasse os móveis de uma casa e, de repente, eu pudesse enxergar o tamanho dos cômodos.

Já aconteceu comigo.

Acontece, acredito, com todos nós.

Há pessoas que passaram pela minha vida e que, depois de algum tempo afastadas, foram desaparecendo lentamente da minha memória. Não houve sofrimento, não houve grande tragédia. Apenas deixaram de fazer parte do meu cotidiano. E, quando percebi, a distância havia feito aquilo que o tempo sabe fazer tão bem: dissolver aquilo que eu imaginava permanente.

Mas também existem pessoas diferentes.

Pessoas que a distância não consegue levar.

Pessoas que continuam presentes mesmo quando estão longe.

Pessoas que o tempo parece não conseguir envelhecer dentro de nós.

E é aí que a frase de La Rochefoucauld começa a ganhar uma profundidade que me impressiona.

O vento apaga a vela, mas atiça a fogueira.

Eu gosto dessa imagem porque ela me parece uma das mais bonitas metáforas que já encontrei para falar dos sentimentos.

Uma pequena chama não resiste ao vento.

Ela treme.

Vacila.

Se inclina.

E finalmente desaparece.

Mas uma fogueira é diferente.

Quanto mais o vento sopra, mais as brasas se espalham.

Mais o fogo cresce.

Mais a noite se ilumina.

III. A prova que a vida coloca diante de nós

Talvez alguns sentimentos sejam exatamente assim.

Há sentimentos que precisam da presença para continuar vivos.

E há sentimentos que descobrimos justamente quando a presença desaparece.

Talvez a ausência seja uma prova.

Não uma prova que alguém nos aplica, mas uma prova que a própria vida coloca diante de nós.

Quando alguém se afasta, alguma coisa acontece dentro da gente.

O que era apenas hábito pode desaparecer.

O que era dependência pode perder força.

O que parecia amor pode revelar-se apenas medo da solidão.

Mas aquilo que tinha raízes profundas pode permanecer.

E permanecer é uma palavra muito forte.

Porque nem tudo que permanece faz barulho.

Algumas coisas permanecem em silêncio.

Uma lembrança.

Uma fotografia.

Uma música.

Uma frase.

Um cheiro.

Uma rua.

Uma casa.

Uma tarde.

Um olhar.

Às vezes, basta uma coisa pequena para que alguém que está ausente volte por alguns segundos e se sente ao nosso lado.

É estranho.

A pessoa não está.

Mas está.

Não posso tocá-la, mas posso lembrá-la.

Não posso conversar com ela, mas ainda consigo ouvir sua voz dentro de mim.

Não posso voltar ao tempo em que estivemos juntos, mas posso fechar os olhos e, por alguns instantes, visitar aquele lugar.

IV. A presença de uma ausência

Talvez seja isso que chamamos de saudade.

A presença de uma ausência.

E talvez seja por isso que algumas ausências doem tanto.

Não porque simplesmente perdemos alguém, mas porque descobrimos que aquela pessoa havia criado raízes dentro de nós.

Eu penso muito nisso.

Penso nas pessoas que passaram pela minha vida.

Penso nas que ficaram.

Penso nas que partiram.

Penso também naquelas que talvez eu só tenha compreendido verdadeiramente depois que já não estavam ao alcance dos meus olhos.

A vida é curiosa.

Enquanto temos, muitas vezes não sabemos.

Quando perdemos, sabemos.

E, às vezes, sabemos tarde demais.

Talvez seja por isso que a ausência tenha esse poder quase cruel de nos ensinar.

Ela nos obriga a distinguir presença de importância.

Nem todo mundo que está perto de nós é importante.

E nem todo mundo que está longe deixou de ser presença.

Há pessoas que moram ao nosso lado e continuam distantes.

Há outras que estão a milhares de quilômetros e continuam morando dentro da nossa memória.

É uma geografia que nenhum mapa consegue explicar.

O coração possui suas próprias distâncias.

E seus próprios caminhos de volta.

V. Tudo aquilo que verdadeiramente importa

Quanto mais penso na frase de La Rochefoucauld, mais percebo que ela não fala apenas de amor.

Ela fala de tudo aquilo que verdadeiramente importa.

Fala das amizades.

Dos vínculos.

Da família.

Dos sonhos.

Das convicções.

Daquilo que somos.

Porque também existem versões de nós mesmos que desapareceram.

Eu já fui alguém que não sou mais.

Todos nós fomos.

Deixamos para trás sonhos, certezas, ilusões, caminhos e pessoas. Algumas coisas desapareceram completamente. Outras continuam vivas em algum lugar de nós.

E talvez a vida também seja isso: uma sucessão de ausências que vai revelando aquilo que realmente permaneceu.

O tempo sopra sobre nós.

A vida sopra.

As perdas sopram.

As decepções sopram.

As mudanças sopram.

E aquilo que não possui raízes vai embora.

Mas há coisas que resistem.

Há sentimentos que o tempo não consegue apagar.

Há memórias que continuam acesas.

Há amores que, mesmo transformados pela distância, continuam iluminando alguma parte da nossa história.

VI. O que é vela, o que é fogueira?

Por isso, hoje, quando penso naquela frase escrita em 1665 por um homem que viveu em um mundo tão diferente do meu, já não a leio apenas como uma máxima filosófica.

Eu a leio como uma pergunta.

Uma pergunta que faço a mim mesmo:

O que, em minha vida, é apenas uma vela?

E o que é fogueira?

O que depende da presença?

O que sobrevive à distância?

O que desaparece quando o vento chega?

E o que, justamente quando o vento sopra, encontra forças para arder ainda mais?

Não tenho respostas definitivas.

Talvez ninguém tenha.

Mas aprendi que o tempo possui uma sabedoria que nós nem sempre temos.

Ele leva embora muita coisa.

Mas também revela muita coisa.

E talvez seja esse o segredo da ausência.

Ela não cria necessariamente o amor.

Ela mostra se havia amor.

Não cria a saudade.

Mostra quem deixou marcas.

Não fortalece qualquer sentimento.

Apenas revela quais sentimentos tinham raízes.

Por isso, quando o vento vier — porque ele sempre vem —, talvez eu não deva ter medo.

Talvez eu deva apenas observar.

Deixar que ele leve o que precisa ir.

E olhar, no meio da noite, para aquilo que ainda estiver aceso.

Porque, no fim, é o vento quem nos diz quais eram apenas velas.

E quais eram fogueiras.

E talvez o amor verdadeiro seja simplesmente aquilo que o vento não consegue apagar.

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— Padre Carlos