Política e Resenha

ARTIGO – A Assembleia como balcão de crédito: um alerta para a Bahia

 

(Padre Carlos)

Quando um Parlamento deixa de ser a casa do povo para tornar-se uma extensão do caixa do Executivo, algo de muito sério está ocorrendo no campo da democracia. A denúncia feita pelo deputado estadual Tiago Correia de que a Assembleia Legislativa da Bahia teria sido “transformada num balcão de crédito” pelo governador Jerônimo Rodrigues não pode ser ignorada. Ela exige reflexão, indignação e, sobretudo, reação.

Não se trata aqui de demonizar empréstimos públicos, que em muitas circunstâncias são necessários para destravar obras e investimentos. Mas o que se vê na Bahia ultrapassa qualquer senso de razoabilidade. De 2023 até agora, segundo levantamento do próprio parlamentar, já foram aprovados R$ 18,2 bilhões em empréstimos — numa média que impressiona: R$ 1 bilhão a cada 45 dias.

Mais do que o montante astronômico, o que assusta é o método. As aprovações ocorrem em regime de urgência, sem que as propostas passem pelas comissões temáticas, sem debate público, sem clareza sobre quais projetos serão executados com tantos recursos. A urgência não pode ser pretexto para a ausência de transparência. Afinal, não se está lidando com dinheiro pessoal, mas com o futuro financeiro do Estado.

É legítimo questionar: para onde está indo esse dinheiro? Quais as contrapartidas? Qual o impacto dessa dívida nos cofres públicos daqui a cinco, dez, vinte anos? A democracia exige prestação de contas, sob pena de perdermos não só o controle fiscal, mas também o sentido da representação política.

O Parlamento não pode se submeter a ser um carimbador automático dos interesses do Executivo. Quando isso acontece, não há governabilidade — há autoritarismo disfarçado de eficiência. E quando a oposição é silenciada pelo rolo compressor da maioria governista, perde-se o equilíbrio, o contraditório, a fiscalização — e, com isso, perde-se o povo.

A Bahia precisa despertar. A dívida pública é um fardo que não se dissolve no marketing político. Alguém — ou melhor, todos nós — pagaremos essa conta. E quando os recursos escassearem para áreas vitais como saúde, educação e segurança, será tarde demais para perguntar onde estavam os bilhões.