(Padre Carlos)
Não são as derrotas que destroem um homem público. O que o destrói é o que ele faz com elas.
Ciro Gomes, outrora referência de inteligência, coragem e verborragia altiva no cenário nacional, parece agora um gladiador cansado, lutando contra fantasmas que ele mesmo criou. A possível candidatura ao governo do Ceará em 2026, ao lado do que sobrou do bolsonarismo, não é apenas uma reviravolta política — é um gesto de autossabotagem histórica.
É verdade que Ciro tem serviços prestados. Foi prefeito, governador, ministro. Teve momentos brilhantes de oratória e coragem, enfrentou barões e corruptos com veemência. Mas o tempo não perdoa quem transforma frustrações em bússola. Desde a campanha presidencial de 2022, o ex-ministro parece movido por algo que vai além da política: rancor, mágoa e desejo de vingança.
Jogar-se nos braços do que resta da direita cearense — inclusive o que há de mais bolsonarista nela — para tentar impedir a reeleição de Elmano de Freitas (PT), é, no mínimo, um paradoxo. Um homem que construiu sua trajetória com uma narrativa progressista, que dizia lutar contra a barbárie do bolsonarismo, agora se deixa fotografar com as sobras do mesmo cardápio.
O que move esse gesto? Não é projeto. Não é renovação. É revanche.
E a política feita de revanche tem data de validade curta e um efeito colateral devastador: joga na lama o legado. Ciro já não é a esperança de uma terceira via — aliás, talvez nunca tenha sido. Agora, ameaça se tornar apenas uma caricatura de si mesmo, alimentando a oposição com migalhas de prestígio e feridas mal cicatrizadas.
Quando a razão se ausenta e o rancor assume o volante, não há legado que resista.





