
A política, por vezes, se assemelha a um grande teatro onde os bastidores são mais importantes que o palco. Nos últimos meses, um enredo curioso tem ganhado corpo entre gabinetes, cafés e colunas especializadas: a possível indicação do senador Otto Alencar (PSD-BA) como vice na chapa presidencial de Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo e aposta da direita bolsonarista para 2026.
Gilberto Kassab, artífice dos bastidores, presidente do PSD e peça-chave no tabuleiro paulista, teria sido o mentor da ideia. A tese é simples e sedutora: oferecer a Otto uma saída honrosa da política aos 77 anos e, ao mesmo tempo, abrir caminho para que Tarcísio conquiste algum espaço no Nordeste, especialmente na Bahia — um território dominado pelo lulismo, onde o bolsonarismo jamais fincou raízes com firmeza.
Do ponto de vista estratégico, a ideia não é absurda. Otto é respeitado, tem biografia, articulação e conhece a liturgia do poder. Além disso, sua imagem moderada poderia suavizar o perfil ultraconservador de Tarcísio, que tem dificuldade de dialogar com o Brasil profundo que vota de coração em Lula.
Mas a política também tem seus ritos — e Otto, experiente como é, não caiu na armadilha das manchetes fáceis. Classificou a proposta de “elucubração simplista” e reafirmou sua lealdade ao presidente Lula, a quem atribui a mais provável reeleição em 2026. Foi enfático: não há conversa, não há articulação, não há vice.
Há quem diga que a negativa de Otto esconde mais do que revela. Que o silêncio do PSD baiano diante das movimentações nacionais de Kassab é, no mínimo, conivente. Que a disputa interna por espaço — entre nomes como Jaques Wagner, Rui Costa e Angelo Coronel — pode, sim, abrir rachaduras futuras na base governista. E que, se o lulismo tropeçar, o pragmatismo pode falar mais alto.
No entanto, por ora, o jogo continua como sempre foi: Otto está com Lula, Kassab está com Tarcísio, e o PSD está no meio do caminho — flertando com todos, mas casando com ninguém.
O que está em curso é mais do que uma aliança hipotética. É um ensaio de realinhamento político nacional, em que partidos e lideranças testam os limites da fidelidade ideológica em nome da viabilidade eleitoral. Otto pode até não ser vice — mas o simples fato de seu nome circular nos corredores do Planalto e nos bastidores paulistas já diz muito sobre o momento em que vivemos.
Enquanto isso, como bom articulista investigativo, sigo atento aos sinais. Porque, em política, o que hoje é negado, amanhã pode virar manchete. E os que hoje dizem “não” podem, amanhã, estar subindo a rampa.




