Padre Carlos
A votação que derrubou o veto presidencial ao projeto da chamada “dosimetria” não deve ser analisada apenas pelo mérito jurídico ou político da matéria. O episódio revelou algo muito mais profundo e estrutural: o governo Lula caminha hoje sem uma base sólida no Congresso Nacional.
E isso precisa ser dito sem paixões ideológicas, sem gritaria militante e sem a velha ilusão de que discursos substituem articulação política.
Os números falam por si.
Quando mais de 300 deputados votam contra a posição do Palácio do Planalto, não estamos diante de um acidente parlamentar. Estamos diante de um retrato político do Brasil real. Um país onde a esquerda institucional possui força eleitoral importante, influência cultural significativa, presença universitária, sindical e midiática — mas não possui hegemonia no Congresso.
A esquerda brasileira precisa admitir o seu tamanho.
E admitir o próprio tamanho não é se diminuir. É compreender a realidade para sobreviver politicamente.
Durante muito tempo, setores progressistas acreditaram que a vitória presidencial significava automaticamente capacidade de governar. Mas o presidencialismo brasileiro não funciona assim. O presidente pode vencer nas urnas e continuar minoritário dentro do Parlamento. E é exatamente isso que estamos assistindo.
Hoje, olhando friamente para a Câmara dos Deputados, percebe-se que a esquerda orgânica — PT, PSOL, PCdoB, Rede e setores do PSB — gira em torno de pouco mais de 100 parlamentares. Mesmo ampliando o conceito para uma centro-esquerda moderada, ainda assim não se alcança uma maioria confortável.
Enquanto isso, a direita e a centro-direita ocupam a espinha dorsal do Congresso. PL, Progressistas, Republicanos, União Brasil, PSD, MDB e outros partidos formam um campo pragmático que, mesmo dividido em interesses regionais, sabe operar com eficiência nos bastidores.
E talvez esteja aí a principal diferença deste momento histórico.
A direita aprendeu a fazer política parlamentar.
Aprendeu a construir maioria. Aprendeu a ocupar espaços estratégicos. Aprendeu a controlar comissões, relatorias, presidências e pautas. Enquanto parte da esquerda ainda acredita que mobilização digital, narrativas morais ou pressão das redes sociais substituem engenharia política.
Não substituem.
O Congresso Nacional não funciona na lógica da militância virtual. Funciona na lógica do voto, da negociação, da composição e da construção permanente de interesses.
O chamado “centrão”, por sua vez, continua sendo aquilo que sempre foi: uma força de poder. Nem esquerda, nem direita em essência. Seu compromisso histórico é com governabilidade, orçamento, influência e sobrevivência política. Quem compreender isso governa. Quem ignorar isso sangra lentamente.
Lula conhece essa dinâmica melhor do que ninguém. Seus primeiros mandatos foram marcados justamente pela capacidade de formar alianças amplas, muitas vezes contraditórias ideologicamente, mas eficientes institucionalmente. O problema é que parte da esquerda atual passou a demonizar a própria política de coalizão que sustentou os anos de maior estabilidade do lulismo.
E a conta chegou.
A votação desta semana mostra que não existe mais espaço para romantismo político em Brasília. O governo precisará escolher entre duas alternativas: ou reconstrói pontes reais com setores do centro e da centro-direita, ou continuará sofrendo derrotas sucessivas dentro do Congresso.
Porque a verdade é dura, mas necessária:
Quem não tem maioria parlamentar governa sob tensão permanente.
E talvez esteja faltando justamente isso ao campo progressista: menos ilusão sobre sua força real e mais inteligência estratégica para compreender o Brasil que saiu das urnas.
O país de hoje não é majoritariamente de esquerda.
Também não é totalmente de direita.
O Brasil atual é conservador nos costumes, pragmático na economia e profundamente fragmentado politicamente. E dentro dessa fragmentação, vence quem articula melhor — não quem grita mais alto.
A política brasileira voltou a ser decidida nos bastidores do Parlamento.
E, nesse jogo, a direita parece estar vários movimentos à frente.





