
(Padre Carlos)
Neste XII Domingo do Tempo Comum, a Palavra de Deus nos atravessa como uma espada de dois gumes, tocando as camadas mais profundas do coração e da consciência social. É impossível permanecer indiferente. Diante do Deus que se revela solidário, do Cristo transpassado por amor e da missão da Igreja como povo eleito, somos convocados — mais do que convidados — a transformar o mundo ao nosso redor.
A profecia de Zacarias ecoa como um gemido coletivo: Jerusalém, o centro do mundo antigo, é a cidade do povo transpassado. Não é uma metáfora abstrata: são os povos escravizados, os pobres desprezados, os migrantes rejeitados, os que tombam nas calçadas dos grandes centros urbanos, esquecidos por uma sociedade que perdeu o rosto de Deus. Mas é justamente ali, no lugar do sofrimento, que Deus derrama um espírito de compaixão e suplica: “olharão para Aquele que transpassaram”. Esse olhar cura, converte e restitui a esperança.
Jesus é este “transpassado”. Sua paixão é a chave de leitura de toda história humana: n’Ele, a dor do mundo encontra sentido. N’Ele, o coração do Pai se escancara para mostrar que não existe amor verdadeiro sem entrega, nem fé autêntica sem compromisso com os crucificados de hoje. E aqui está o centro do Evangelho: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia e me siga.” Não há caminho sem cruz, não há discipulado sem solidariedade.
Na carta aos Gálatas, Paulo anuncia um milagre ético e político: “Todos vós sois um só em Cristo Jesus.” Já não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher — eis o sonho de uma nova humanidade. Isso é revolução cristã: o batismo como gesto de resistência contra o preconceito, a desigualdade e o exclusivismo religioso. Não é possível ser cristão e manter intactas as estruturas de dominação. Em Cristo, tudo é novo. Portanto, é pecado grave manter muros que Cristo já derrubou.
Jesus, no Evangelho de Lucas, não se deixa reduzir a uma imagem confortável. Quando pergunta “Quem dizem que eu sou?”, revela o drama da fé: há quem deseje um Cristo político, mágico, tribal, e até messiânico no estilo dos imperadores. Mas o Cristo real é servo, pobre, amigo dos marginalizados. E é esse Cristo que Pedro confessa — ainda que com medo. Pedro somos todos nós: capazes de proclamar com coragem e, no momento seguinte, negar por covardia. Mas é também sobre esta rocha frágil que Deus constrói sua Igreja, não porque ela seja perfeita, mas porque é sincera na sua conversão.
E aqui mora a responsabilidade de nossa fé: Deus não se revela apenas para nos consolar, mas para nos enviar. O nome de Deus não é uma doutrina, é um projeto. Como em Êxodo: “Eu vi a miséria do meu povo… desci para libertá-lo.” Portanto, quem invoca o nome do Senhor deve comprometer-se com a justiça. Não lutar pela justiça social é, sim, profanar o nome de Deus! É trair o Cristo transpassado e ignorar a paixão que ainda se repete nas vielas, nos presídios, nas favelas e nos campos explorados da América Latina.
Não é à toa que o Documento de Aparecida denuncia estruturas injustas e cobra fidelidade evangélica dos que têm responsabilidade pública. Não podemos continuar com cristãos batizados que vivem como se Cristo fosse apenas um símbolo religioso. Ser Igreja é ser sal, luz, fermento. É dar rosto concreto ao Reino de Deus: uma sociedade onde ninguém explore o outro, onde o bem comum prevaleça sobre o lucro e onde a dignidade humana seja sagrada.
Meus irmãos, a Jerusalém de hoje não é apenas geográfica. Ela está em nossas comunidades, quando amamos de verdade; em nossos corações, quando perdoamos; e em nossas mãos, quando lutamos. É ali que Deus derrama seu Espírito e começa o novo céu e a nova terra.
Que neste domingo, possamos olhar para o Cristo transpassado e, ao invés de virar o rosto, deixemos que Ele transforme nosso olhar. Que Ele purifique nossa fé, mova nosso compromisso, e nos faça — como disse Isaías — construtores de casas onde o povo habite, e de vinhas cujos frutos alimentem todos.
Esse é o projeto. Este é o nosso chamado. Não há tempo para neutralidade. O Reino de Deus não se faz com discursos, mas com testemunhos. Que sejamos essa Igreja viva, profética e samaritana, onde o nome de Deus seja honrado por meio da justiça.
Amém.
ARTIGO – “Transpassado por Amor, Chamados à Justiça”
(Padre Carlos)
Neste XII Domingo do Tempo Comum, a Palavra de Deus nos atravessa como uma espada de dois gumes, tocando as camadas mais profundas do coração e da consciência social. É impossível permanecer indiferente. Diante do Deus que se revela solidário, do Cristo transpassado por amor e da missão da Igreja como povo eleito, somos convocados — mais do que convidados — a transformar o mundo ao nosso redor.
A profecia de Zacarias ecoa como um gemido coletivo: Jerusalém, o centro do mundo antigo, é a cidade do povo transpassado. Não é uma metáfora abstrata: são os povos escravizados, os pobres desprezados, os migrantes rejeitados, os que tombam nas calçadas dos grandes centros urbanos, esquecidos por uma sociedade que perdeu o rosto de Deus. Mas é justamente ali, no lugar do sofrimento, que Deus derrama um espírito de compaixão e suplica: “olharão para Aquele que transpassaram”. Esse olhar cura, converte e restitui a esperança.
Jesus é este “transpassado”. Sua paixão é a chave de leitura de toda história humana: n’Ele, a dor do mundo encontra sentido. N’Ele, o coração do Pai se escancara para mostrar que não existe amor verdadeiro sem entrega, nem fé autêntica sem compromisso com os crucificados de hoje. E aqui está o centro do Evangelho: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia e me siga.” Não há caminho sem cruz, não há discipulado sem solidariedade.
Na carta aos Gálatas, Paulo anuncia um milagre ético e político: “Todos vós sois um só em Cristo Jesus.” Já não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher — eis o sonho de uma nova humanidade. Isso é revolução cristã: o batismo como gesto de resistência contra o preconceito, a desigualdade e o exclusivismo religioso. Não é possível ser cristão e manter intactas as estruturas de dominação. Em Cristo, tudo é novo. Portanto, é pecado grave manter muros que Cristo já derrubou.
Jesus, no Evangelho de Lucas, não se deixa reduzir a uma imagem confortável. Quando pergunta “Quem dizem que eu sou?”, revela o drama da fé: há quem deseje um Cristo político, mágico, tribal, e até messiânico no estilo dos imperadores. Mas o Cristo real é servo, pobre, amigo dos marginalizados. E é esse Cristo que Pedro confessa — ainda que com medo. Pedro somos todos nós: capazes de proclamar com coragem e, no momento seguinte, negar por covardia. Mas é também sobre esta rocha frágil que Deus constrói sua Igreja, não porque ela seja perfeita, mas porque é sincera na sua conversão.
E aqui mora a responsabilidade de nossa fé: Deus não se revela apenas para nos consolar, mas para nos enviar. O nome de Deus não é uma doutrina, é um projeto. Como em Êxodo: “Eu vi a miséria do meu povo… desci para libertá-lo.” Portanto, quem invoca o nome do Senhor deve comprometer-se com a justiça. Não lutar pela justiça social é, sim, profanar o nome de Deus! É trair o Cristo transpassado e ignorar a paixão que ainda se repete nas vielas, nos presídios, nas favelas e nos campos explorados da América Latina.
Não é à toa que o Documento de Aparecida denuncia estruturas injustas e cobra fidelidade evangélica dos que têm responsabilidade pública. Não podemos continuar com cristãos batizados que vivem como se Cristo fosse apenas um símbolo religioso. Ser Igreja é ser sal, luz, fermento. É dar rosto concreto ao Reino de Deus: uma sociedade onde ninguém explore o outro, onde o bem comum prevaleça sobre o lucro e onde a dignidade humana seja sagrada.
Meus irmãos, a Jerusalém de hoje não é apenas geográfica. Ela está em nossas comunidades, quando amamos de verdade; em nossos corações, quando perdoamos; e em nossas mãos, quando lutamos. É ali que Deus derrama seu Espírito e começa o novo céu e a nova terra.
Que neste domingo, possamos olhar para o Cristo transpassado e, ao invés de virar o rosto, deixemos que Ele transforme nosso olhar. Que Ele purifique nossa fé, mova nosso compromisso, e nos faça — como disse Isaías — construtores de casas onde o povo habite, e de vinhas cujos frutos alimentem todos.
Esse é o projeto. Este é o nosso chamado. Não há tempo para neutralidade. O Reino de Deus não se faz com discursos, mas com testemunhos. Que sejamos essa Igreja viva, profética e samaritana, onde o nome de Deus seja honrado por meio da justiça.
Amém.




