
(Padre Carlos)
Vitória da Conquista, palco de tantas lutas sociais e símbolo de resistência no sertão baiano, enfrenta hoje um paradoxo político que não pode mais ser ignorado. A esquerda, que historicamente se apresentou como força de mudança, encontra-se presa a um ciclo de repetição, onde seus quadros para a disputa de cargos legislativos permanecem praticamente os mesmos há décadas. Nomes que já marcaram sua trajetória, mas que agora parecem desconectados da renovação exigida pelo tempo e pela sociedade.
Enquanto isso, no campo do centro e da direita, a paisagem é outra. Novas figuras surgem com apelo popular, estratégias bem definidas e uma linguagem mais conectada às demandas atuais da população. O exemplo mais emblemático ainda é Herzem Gusmão, último representante desse campo a vencer a barreira do Legislativo estadual com vigor e representatividade. Desde então, a direita local soube se reorganizar, criar novos nomes e apostar em discursos que seduzem inclusive setores tradicionalmente críticos ao seu projeto.
Essa assimetria salta aos olhos. A esquerda, que deveria ser vanguarda, parece ter estacionado no passado. Os mesmos candidatos, os mesmos discursos, as mesmas práticas. E quando uma ideia se repete demais sem renovação, perde sua potência. O eleitor quer escuta, quer presença, quer ousadia. Quer se ver representado — e não apenas lembrado em épocas de eleição.
Neste cenário, a prefeita Sheila Lemos mostra-se uma maestrina astuta. Constrói sua base com precisão, alinha os instrumentos e exige que ninguém desafine sua sinfonia política. Ela compreendeu o jogo. Compreendeu que política é organização, é narrativa, é composição harmônica entre força institucional e comunicação de massa. Seu governo pode não agradar a todos — nenhum agrada — mas ela impõe ritmo, método e liderança, enquanto os adversários ainda tentam encontrar a batida.
Se a esquerda quiser voltar a ocupar espaços estratégicos em Conquista, precisará mais do que história e memória afetiva. Será necessário oxigenar, abrir mão de vaidades pessoais, identificar novas lideranças, acolher a juventude, valorizar as mulheres e ampliar a escuta popular. Política é, acima de tudo, movimento — e quem não se move é tragado pela irrelevância.
Não se vence um concerto tocando a mesma melodia cansada de sempre. Enquanto isso, a prefeita rege sua orquestra, e quem desafinar… que se cale ou mude o tom.




