Política e Resenha

ARTIGO – Otto Alencar e a Política como Ato de Sabedoria

 

 

(Padre Carlos)

Em tempos de vaidades infladas e egos hipertrofiados, a política brasileira parece cada vez mais afastada da sabedoria. Os palanques se tornaram vitrines de ambição, e as redes sociais, arenas de vaidade. Em meio a esse cenário saturado de performances, a figura serena e reflexiva do senador Otto Alencar ressurge como um ponto fora da curva. Seu nome carrega hoje um valor simbólico: o da liderança que escuta, pondera, ensina e, sobretudo, inspira.

Otto, veterano da política baiana e nacional, tem demonstrado uma postura que lembra os antigos estadistas, aqueles que compreendiam que o poder é um instrumento a serviço do bem comum, e não um trampolim para cultos de personalidade. Em uma recente transmissão ao vivo pelo Instagram — espaço hoje mais conhecido por polêmicas do que por profundidade — o senador surpreendeu ao compartilhar não um ataque a adversários, mas uma meditação poética e espiritual.

Citou a canção Gita, de Raul Seixas e Paulo Coelho, lançada em 1974. A letra, impregnada de misticismo e filosofia oriental, fala da condição humana em sua totalidade paradoxal:

“Eu sou a vela que acende, eu sou a luz que se apaga. Eu sou a beira do abismo, eu sou o tudo e o nada.”

Otto comentou que ouvira essa música ainda na época da residência médica. Um tempo em que a formação não era apenas técnica, mas também humana. Ao trazer à tona essa lembrança, o senador fez mais do que uma citação musical. Ele nos entregou uma reflexão política, ética e existencial.

A frase evoca o conceito de transitoriedade — tudo passa, tudo muda. E com isso, Otto lança um recado direto e contundente ao campo político: não há espaço para vaidade ou arrogância onde a humildade deveria reinar. Quem hoje está no pedestal pode estar, amanhã, diante do abismo. Essa consciência da impermanência é o que diferencia um líder sábio de um chefe autoritário.

Otto Alencar e a escassez de sabedoria no PT

É aqui que a comparação se impõe: será que essa sabedoria, essa humildade filosófica, não é justamente o que falta aos caciques do PT baiano? Não seria esse olhar sobre a transitoriedade do poder — e sobre a importância de alianças maduras — o que poderia evitar os conflitos internos que minam o campo progressista?

Ao contrário do que se espera de um partido com raízes populares, setores do PT parecem ter desenvolvido uma surdez institucional. Ignoram aliados, desprezam conselhos e centralizam decisões como se o tempo não passasse para eles. Essa postura tem gerado atritos, esfriado alianças e, sobretudo, afastado vozes que poderiam enriquecer o debate.

Otto Alencar, com sua trajetória pautada pela escuta e pelo equilíbrio, representa exatamente o contrário disso. Ele compreende que a política não se sustenta apenas na força dos discursos, mas na sabedoria de reconhecer os momentos, os limites e as oportunidades. Sua liderança no Senado Federal é hoje uma referência nacional, especialmente em tempos de crise de representatividade.

A humildade como chave para a liderança política

A política brasileira está carente de estadistas. Falta quem enxergue além da próxima eleição. Falta quem compreenda que a liderança política verdadeira é aquela que se curva para escutar, e não para dominar. Em Otto Alencar, vemos um raro exemplo de alguém que não perdeu a dimensão do humano. E isso, em política, é revolucionário.

Quando um senador da República escolhe citar Raul Seixas ao invés de atacar adversários, está nos dizendo que política também é poesia. Que política também é silêncio, reflexão, espiritualidade. Isso, num Brasil ferido por narrativas rasas e disputas insanas, é um respiro. É a lembrança de que a humildade na política é mais do que uma virtude moral: é um imperativo ético.

Não é de hoje que Otto demonstra essa postura. Em votações complexas, mantém equilíbrio. Em entrevistas, evita o escândalo fácil. Em alianças, preza pelo respeito mútuo. Tudo isso configura uma liderança que não se impõe pelo grito, mas pelo exemplo.

Um modelo para as novas gerações

É preciso que a nova geração de políticos — inclusive dentro do PT — compreenda que sabedoria e poder não são antagônicos. Pelo contrário: quando combinados, geram governantes que deixam legado. E um legado não se constrói com prepotência, mas com discernimento.

O Brasil não precisa de mais líderes inflamados. Precisa de mais figuras como Otto Alencar: equilibradas, sábias, conscientes de que o poder é efêmero, mas que a dignidade é eterna. A política precisa recuperar sua dimensão pedagógica, simbólica e até espiritual. A fala de Otto, ao citar Gita, é uma pequena aula sobre isso.

Conclusão: a verdadeira liderança nasce da humildade

Ao dizer que é “a vela que acende e a luz que se apaga, a beira do abismo e o tudo e o nada”, Otto nos lembra de que o poder é um ciclo, e que só os tolos se agarram a ele como se fosse eterno. Os grandes líderes — como ele começa a se configurar — sabem que a verdadeira força está na simplicidade.

E é por isso que, talvez, o PT baiano e outras lideranças políticas deveriam parar para escutar mais e gritar menos. Porque às vezes, numa live despretensiosa, se encontra mais sabedoria do que em mil reuniões de diretório.

Otto Alencar, com sua fala serena e sua postura reflexiva, é hoje uma das vozes mais sensatas do Senado. Uma liderança que faz falta. Uma sabedoria que ainda resiste. E talvez, justamente por isso, um símbolo do que ainda podemos esperar da boa política brasileira.