Política e Resenha

ARTIGO – O suicídio geopolítico de Donald Trump

 

 

(Padre Carlos)

Posso não ser um especialista em economia, mas de política eu entendo. São quase cinquenta anos acompanhando, militando, observando e refletindo sobre os rumos do poder e suas engrenagens. Por isso, me sinto à vontade para analisar o que está por trás do recente episódio envolvendo o presidente americano Donald Trump e a taxação abusiva sobre produtos brasileiros, inicialmente anunciados em 50%.

Não podemos esquecer que Trump piscou. Diante da pressão global, do colapso nos mercados e da destruição de valor em larga escala, ele recuou das taxas que estava impondo aos seus parceiros históricos, mas já era tarde. O estrago, porém, já estava feito. A reversão nos índices financeiros após o anúncio do recuo mostrou que o mercado respirou aliviado — mas por pouco. A ferida mais profunda ficou: a perda de confiança. E quando o mercado perde a confiança, perde-se muito mais do que bilhões: perde-se estabilidade, segurança e perspectiva.

Houve uma quebra de paradigma. Pela primeira vez, o mundo assistiu àquilo que chamo de suicídio geopolítico em tempo real, protagonizado não por uma nação periférica ou um regime instável, mas pelo líder da maior potência do planeta. Um desastre provocado por uma combinação perigosa de ignorância econômica, incompetência diplomática e arrogância populista.

Ao sacrificar a credibilidade dos Estados Unidos em nome de uma narrativa nacionalista rasa, Trump comprometeu décadas de estabilidade geoeconômica. Colocou em risco o papel do Tesouro Americano como porto seguro dos investidores globais e lançou dúvidas sobre a capacidade de condução política da Casa Branca. Isso não é apenas um erro de cálculo. É um colapso de racionalidade política.

E tudo isso por quê? Para agradar uma base eleitoral que já não se reconhece nos princípios que tornaram os Estados Unidos referência mundial: multilateralismo, diplomacia, previsibilidade institucional e responsabilidade fiscal. Em nome de um discurso agressivo e retrógrado, Trump conseguiu colocar o próprio país em rota de colisão com o mundo.

A consequência imediata foi o aumento da volatilidade nos mercados, a instabilidade no comércio internacional e o agravamento da guerra comercial com a China — cujas tarifas eram inaceitáveis. Estamos diante de uma nova ordem global, mas sem mapa, sem bússola e sem líderes confiáveis.

O que restará do legado americano após essa destruição simbólica? O futuro responderá. Mas uma coisa é certa: a confiança — base de toda economia saudável e de qualquer diplomacia bem-sucedida — foi abalada. E talvez de forma irreversível. O Brasil é mais uma vitima desta desastrada política estadunidense.