Política e Resenha

ARTIGO – O tarifaço de Trump empurra o Brasil para os braços da China

 

 

(Padre Carlos)

Quando Donald Trump impôs uma sobretaxa de 50% sobre todos os produtos brasileiros, não foi apenas a economia que sentiu o golpe — foi também a geopolítica. O gesto abrupto, com claro viés político, escancarou uma porta que já estava entreaberta: a do abraço diplomático e comercial do Brasil com a China, rival número um dos Estados Unidos no xadrez global.

Esse tarifaço, anunciado para entrar em vigor a partir de 1º de agosto, mais parece uma retaliação camuflada, um recado atravessado que ultrapassa os contornos econômicos. É uma bofetada diplomática, desferida com as luvas da arrogância imperial de quem ainda acha que o mundo gira ao redor da Casa Branca.

Enquanto Trump rosna do alto de seus discursos incendiários, Xi Jinping sorri discretamente em Pequim. O Brasil, que já tinha na China seu maior parceiro comercial, agora vê nesse parceiro um refúgio estratégico diante do rompante norte-americano. A fala da porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Mao Ning, em defesa do Brasil, não foi apenas um gesto de solidariedade — foi um movimento calculado para estreitar laços e pavimentar novas rotas comerciais, diplomáticas e até militares.

Os números são inapeláveis. No primeiro semestre de 2025, o Brasil registrou superávit de quase US$ 12 bilhões com a China, enquanto amargou um déficit de US$ 1,7 bilhão com os EUA. O que Trump está fazendo, na prática, é empurrar o Brasil definitivamente para o lado do Dragão Asiático, num momento em que as alianças geoestratégicas se redesenham com rapidez.

Mas há um detalhe importante que não pode ser ignorado: os EUA compram do Brasil principalmente produtos industrializados — motores de crescimento com valor agregado. Já a China ainda concentra sua pauta em commodities, como soja, minério de ferro e carne. E aqui mora o risco. Não se trata de trocar um parceiro imperial por outro. Trata-se de exigir que essa nova aproximação se dê em bases mais equilibradas. O Brasil não pode continuar refém da exportação de matérias-primas. Precisa vender conhecimento, inovação e tecnologia.

A motivação de Trump é política. Ele busca criar fatos, alimentar tensões e agradar sua base eleitoral — especialmente os apoiadores de Jair Bolsonaro, seu aliado ideológico. Ao atacar Alexandre de Moraes e usar o STF como bode expiatório, Trump mistura os assuntos internos do Brasil com seus próprios interesses eleitorais. O resultado é um insulto à soberania brasileira e à diplomacia como prática civilizatória.

O governo Lula está diante de um dilema: retaliar ou dialogar. Até o momento, prevalece a moderação. Mas os estudos em curso sobre cassação de patentes americanas e aumento de tarifas sobre produtos culturais dos EUA mostram que o Brasil não está de joelhos. A ameaça de recorrer à OMC — ainda que a entidade esteja com as engrenagens enferrujadas desde que o próprio Trump sabotou o órgão — é um sinal de que Brasília sabe jogar com as armas da legalidade internacional.

O episódio escancara o esgotamento de um modelo de submissão. O Brasil precisa rever sua posição no mundo. Não somos quintal de Washington. E tampouco devemos ser linha de montagem de Pequim. É hora de construir uma política externa soberana, pragmática, diversificada e corajosa.

Trump, com sua prepotência habitual, acabou prestando um favor não intencional ao Brasil: nos obrigou a olhar para o Oriente com mais atenção e menos preconceito. Se vamos sair desse conflito fortalecidos ou enfraquecidos, dependerá da inteligência do Itamaraty, da coragem política do Planalto e da capacidade da nossa indústria em se reinventar.

O que é certo é que o mundo está mudando. E o Brasil não pode se apequenar numa guerra que não começou, mas da qual, agora, faz parte.