
(Padre Carlos)
Na Liturgia do XV Domingo do Tempo Comum, os textos bíblicos nos provocam a uma profunda revisão de vida. Moisés nos convida à escuta da voz de Deus, Paulo nos exorta a reconhecer Cristo como centro da criação, e o Evangelho nos aponta para a figura surpreendente do samaritano, estrangeiro rejeitado que se torna modelo de misericórdia. A síntese dessa tríplice interpelação é clara: humanizar é, também, evangelizar.
Vivemos tempos marcados por discursos vazios de afeto, práticas religiosas que perderam a conexão com o sofrimento real das pessoas e uma espiritualidade sem ética. Mas o Evangelho deste domingo é um soco na alma de quem tenta viver a fé como mero ritual. Jesus desmonta qualquer tentativa de uma religião indiferente, de uma piedade desumana, e coloca no centro da experiência religiosa a compaixão ativa, concreta, transformadora.
O samaritano é a parábola viva do Evangelho: não importa a origem, a filiação religiosa, ou a pertença étnica. Importa o gesto. A dor do outro é o altar onde Deus se revela. A estrada entre Jerusalém e Jericó é o palco da verdadeira liturgia cristã: não um templo isolado da vida, mas o mundo onde pessoas caídas precisam de mãos que levantem, de olhos que vejam, de corações que sintam.
Moisés já havia nos advertido: a Lei de Deus está ao nosso alcance. Não está no céu, inacessível, nem além-mar. Está próxima, nos lábios e no coração. Isso significa que não precisamos de intermediários técnicos da fé para discernir o bem: o próprio coração humano, tocado pela Palavra, é capaz de reconhecer o que promove vida, dignidade e justiça. A Lei é dom, não opressão. É caminho, não prisão.
Paulo, em sua carta aos colossenses, recorda que tudo foi criado em Cristo e para Cristo. Se é assim, então toda a criação é lugar sagrado. Cada vida humana, em especial as mais vulneráveis, manifesta algo da glória de Deus. Ignorar isso é negar o próprio Cristo. E Paulo é categórico: reconciliar o mundo com Deus passa por eliminar a indiferença, superar a exclusão, abraçar o amor como critério último da fé.
A fé cristã não é adorno litúrgico, nem seguro espiritual para a vida eterna. É, antes, compromisso radical com o presente. E o presente nos exige decisões: podemos deixar para fazer o bem outro dia? Quando tivermos mais tempo? Mais dinheiro? Não. O tempo de Deus é o hoje. O Evangelho é sempre urgente.
Jesus, com sua vida e palavras, nos ensinou que a verdadeira religião se manifesta no combate à fome, à ignorância, à opressão, ao preconceito. Ele não se acovardou diante do poder político ou religioso. Denunciou, incomodou, enfrentou. Rejeitou os silêncios convenientes que esqueciam os pobres, as mulheres, os doentes, os estrangeiros. Lembrou a todos que o Reino de Deus começa exatamente aí: nos esquecidos da história.
Por isso, humanizar é evangelizar. Significa olhar para a dor do outro não com pena, mas com compromisso. É transformar estruturas, combater desigualdades, exigir justiça. Isso se faz pelas mãos de cada um, mas também pelas mãos da coletividade: através das políticas públicas, da atuação pastoral, do engajamento cidadão. Não há Evangelho verdadeiro sem uma prática libertadora.
Amartya Sen, ao afirmar que desenvolvimento é liberdade, nos aponta um caminho ético e político para a fé cristã: não basta acumular riquezas, é preciso desenvolver as pessoas. A pobreza não é apenas a falta de renda, é a ausência de autoestima, de voz, de oportunidades. Evangelizar, então, é lutar contra a miséria em todas as suas formas. E isso se faz, também, na política.
O Papa Francisco, na Evangelii Gaudium, nos lembra que a política, longe de ser suja por natureza, é uma das formas mais preciosas da caridade. Porque busca o bem comum. Porque exige coragem, ética e paixão pelo povo. Ser cidadão fiel é virtude cristã. Participar da vida política é obrigação moral.
O Evangelho do bom samaritano nos desinstala: ele foi o único que não desviou o olhar. Que não buscou justificativas religiosas para a omissão. Que não terceirizou o cuidado. Ele agiu. Ele viu. Ele sentiu. E ele se aproximou.
A Igreja que anuncia o Evangelho tem de ser samaritana. Não basta pregar belas homilias nem organizar festas litúrgicas. É preciso estar na estrada, entre os caídos. E ali, fazer brotar a esperança.
Humanizar é evangelizar. Porque Deus se fez humano. Porque o Verbo se fez carne. Porque o amor se faz gesto. E porque o Reino se faz aqui.




