Política e Resenha

O 8 de Janeiro de Terno e Gravata

 

Por Padre Carlos

O que presenciamos estupefatos nos últimos dois dias no Congresso Nacional foi nada menos que uma versão “civilizada” do 8 de janeiro de 2023. Se naquela data fatídica os golpistas vestiram verde e amarelo para invadir e depredar os Três Poderes, desta vez optaram pelo terno e gravata para tentar subverter a ordem democrática por dentro das próprias instituições.

A cena constrangedora de Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados, tendo que implorar ao deputado Marcel van Hattem para que este lhe permitisse sentar em sua própria cadeira presidencial não foi apenas um episódio de insubordinação parlamentar. Foi a materialização visual de uma democracia em tensão permanente, onde as regras do jogo são constantemente testadas por aqueles que juraram defendê-las.

Van Hattem, em sua performance autoritária, não estava apenas desrespeitando o regimento interno da Casa. Estava encenando, para as câmeras e para seus seguidores nas redes sociais, o mesmo desprezo pelas instituições democráticas que motivou os vândalos de 8 de janeiro. A diferença é que, desta vez, o palco foi o próprio plenário da Câmara, e o figurino, mais adequado ao ambiente.

A Estratégia do Caos Institucional

O episódio revela uma estratégia deliberada de erosão das normas democráticas que vai muito além de birras parlamentares ou disputas regimentais. É a aplicação prática do manual golpista contemporâneo: deslegitimar as instituições por dentro, criar o caos procedimental e, assim, justificar intervenções cada vez mais autoritárias.

Motta sai desta crise não apenas desmoralizado, mas perigosamente fragilizado. Um presidente da Câmara que precisa negociar o direito de sentar em sua própria cadeira perde, inevitavelmente, a autoridade moral necessária para conduzir os trabalhos legislativos. E essa fragilização não é um efeito colateral indesejado – é precisamente o objetivo dos provocadores.

O Golpe Permanente

Não nos enganemos: o golpe não terminou em 8 de janeiro de 2023. Ele apenas mudou de tática. Se antes apostavam na força bruta e na ocupação física dos prédios públicos, agora optam pela corrosão lenta e metódica das instituições, aproveitando-se das próprias regras democráticas para subvertê-las.

Van Hattem e seus pares não são parlamentares exercendo legítima oposição – são agentes de um projeto de poder que não reconhece limites constitucionais quando estes contrariam seus interesses. Cada gesto de desrespeito às normas parlamentares, cada desafio à autoridade dos presidentes das Casas, cada tentativa de paralisar os trabalhos legislativos faz parte de uma estratégia maior de ingovernabilidade.

O Preço da Complacência

O mais grave é que esse comportamento vem sendo tolerado, normalizado e, em muitos casos, até mesmo celebrado por uma parcela da opinião pública que confunde democracia com vale-tudo. Há quem veja nos gestos autoritários de Van Hattem uma demonstração de “coragem” ou “firmeza”, quando, na verdade, assistimos à demolição controlada das bases sobre as quais nossa jovem democracia se sustenta.

A democracia brasileira não pode se dar ao luxo de tratar como “folclore parlamentar” aquilo que é, na essência, uma tentativa sistemática de subversão da ordem constitucional. O 8 de janeiro de terno e gravata pode não ter a dramaticidade visual das invasões de 2023, mas é, em muitos aspectos, mais perigoso – porque opera na zona cinzenta da aparente legalidade.

A Resistência Necessária

É urgente que as forças democráticas compreendam que estamos diante de uma ameaça existencial às nossas instituições. Não basta condenar retoricamente os excessos – é preciso reagir com a firmeza que a gravidade do momento exige.

A democracia não é um regime político suicida. Ela tem mecanismos de defesa, e estes precisam ser acionados antes que seja tarde demais. O episódio Van Hattem deve servir como alerta vermelho: o golpe continua em curso, apenas mudou de uniforme.

Resta saber se teremos a lucidez para identificá-lo a tempo e a coragem para detê-lo enquanto ainda é possível.