
(Padre Carlos)
Na cena política baiana, onde alianças e rupturas são sempre acompanhadas por olhares atentos e especulações intensas, o senador Angelo Coronel voltou a mexer no tabuleiro. Em entrevista a um blog da capital, falou sem rodeios: “Tudo pode acontecer”. A frase, curta e cheia de significados, foi o suficiente para reacender o debate sobre uma possível composição com ACM Neto nas próximas eleições.
Coronel não esconde a amizade com o ex-prefeito de Salvador. Recorda campanhas conjuntas, encontros pessoais e até visitas informais, que, segundo ele, jamais se deixariam contaminar pelo clima de patrulhamento político. “Não aceito que ninguém patrulhe as minhas amizades, em hipótese alguma”, cravou, mirando de forma indireta setores mais rígidos do PT e da esquerda.
Essa postura, que se recusa a colocar fronteiras intransponíveis entre relações pessoais e divergências partidárias, incomoda. No ambiente polarizado, a simples ideia de um diálogo próximo entre figuras de espectros diferentes — um senador do PSD e um líder do União Brasil — provoca calafrios nos guardiões da coerência ideológica. Mas, para Coronel, coerência não significa isolamento: “Não é porque estamos em partidos opostos que devemos romper vínculos de amizade ou gratidão”.
Ao reafirmar que nunca foi “carlista” — termo historicamente associado ao grupo político de Antônio Carlos Magalhães — e sim “autista” no sentido partidário que ele próprio define, Coronel tenta se colocar como uma figura livre, não subordinada a rótulos tradicionais da política baiana. É, no mínimo, um posicionamento estratégico: manter pontes abertas, não fechar portas e preservar margens de manobra para o futuro.
O impacto dessas declarações vai além da relação entre Angelo Coronel e ACM Neto. Revela, na prática, um traço cada vez mais raro na política brasileira: a capacidade de transitar entre campos distintos sem se deixar capturar pelo sectarismo. Em tempos de trincheiras ideológicas, esse gesto é visto por uns como pragmatismo inteligente, por outros como flerte perigoso com o adversário.
No fim, o recado é claro: 2026 ainda está longe e, no tabuleiro da política baiana, nenhuma peça está fixada. Como disse o próprio Coronel, “tudo pode acontecer”. E, no Brasil, isso geralmente significa que muita coisa vai mudar antes do jogo terminar.




