Política e Resenha

ARTIGO – Os três profetas do Brasil: Hélder, Luciano e Zumbi, a Igreja do século XX que ousou olhar para os pobres

 

(Padre Carlos)

Há datas que são mais que marcos do calendário: são chamados da história para revisitar nossa consciência e nosso compromisso. O dia 27 de agosto, que coincide com a Páscoa de três grandes homens de Deus – Dom Hélder Câmara, Dom Luciano Mendes de Almeida e Dom José Maria Pires, o Dom Zumbi – é uma dessas datas. Três vozes distintas, mas unidas pelo mesmo sopro do Espírito. Três bispos que mudaram para sempre o rosto da Igreja no Brasil e, de certo modo, prepararam o caminho para um Papa que viria do fim do mundo para relembrar o mundo inteiro: a Igreja é, antes de tudo, dos pobres.

A força desses homens não estava nos títulos, mas na coragem de ser Igreja viva. Dom Hélder, o “bispinho” das favelas, ousou desafiar a ditadura, falar de direitos humanos quando isso significava perseguição, e recordar que dar pão é bom, mas perguntar por que falta pão é escandaloso. Ele organizou a CNBB, ajudou a fundar o CELAM, foi voz ativa no Vaticano II e fez a Igreja latino-americana descobrir que o Evangelho precisa ter rosto, mãos calejadas e pés descalços.

Dom Luciano, jesuíta como Francisco, foi o homem do sorriso e do serviço. Da prisão aos palácios, do barraco à Unesco, ele carregava a convicção de que a fé precisa se traduzir em cuidado. Sua Pastoral do Menor, sua presença nas ruas, sua denúncia serena mas firme, tudo revelava que a Igreja só é fiel quando se torna “irmã dos outros”. Sua santidade era a simplicidade do encontro com o sofrimento humano.

Dom José Maria Pires, o primeiro bispo negro do país, fez a Igreja brasileira olhar para sua própria história de exclusão. Chamado Dom Zumbi, levou a luta quilombola para o altar, celebrou a Missa dos Quilombos, formou centenas de comunidades de base e jamais se curvou ao medo. Falava claro, sem medo de incomodar, porque acreditava que o Evangelho é sempre um anúncio e uma denúncia. Sua crítica à falta de profetismo da Igreja é uma ferida aberta e um convite: quem hoje se arrisca a estremecer as estruturas pelo Reino?

Esses três homens, cada um a seu modo, fizeram a Igreja deixar o conforto da sacristia para pisar o chão duro das periferias. Eles foram précursores do que hoje chamamos de “Igreja em saída”, termo que Francisco apenas retomou e ampliou. Foram teólogos da vida, pastores do povo, profetas do Reino. Não foram perfeitos, mas foram inteiros.

Quando olhamos o Brasil de hoje, com suas desigualdades gritantes e um cristianismo muitas vezes refém do poder e do mercado, o legado deles nos desafia: que Igreja queremos ser? Uma que acumula templos e títulos ou uma que reparte o pão e a palavra? Hélder, Luciano e Zumbi responderam com a vida. Talvez seja hora de fazermos o mesmo.