Por Padre Carlos
Quando a ausência de voz se torna o eco mais doloroso da nossa história
Há momentos na vida de uma cidade em que o silêncio grita mais alto que qualquer discurso. E foi exatamente isso que ouvimos nas palavras do Presidente da Câmara de Vitória da Conquista: um grito abafado, um lamento profundo de quem vê uma terra próspera definhar por falta de quem a represente com dignidade nos corredores do poder.
A perda do hospital universitário para Paulo Afonso não é apenas um revés político — é uma ferida que sangra na alma coletiva de 400 mil conquistenses que sentem, mais uma vez, o amargor de serem esquecidos. Como pode uma cidade que é o coração pulsante de 76 municípios, que abraça 2 milhões de baianos em sua influência, ver escapar pelos dedos aquilo que por direito e necessidade deveria ser seu?
O Peso da Invisibilidade
“Não temos representante e se temos é muito fraco” — essas palavras ecoam como um suspirar coletivo, carregando consigo a tristeza de quem se vê órfão numa democracia que deveria acolher. É a confissão dolorosa de uma cidade que nasceu para ser grande, mas que tropeça constantemente na própria potencialidade não realizada.
Conquista é uma daquelas cidades que carregam no nome o seu destino. Mas que conquistas podemos celebrar quando nossos sonhos são constantemente entregues a outros? Quando nossos jovens, sedentos de conhecimento médico, precisam migrar para outras terras em busca da formação que deveria estar disponível aqui, no campus da UFBA que já existe, mas que permanece incompleto como um verso interrompido?
Um Hospital que era Mais que um Hospital
O hospital universitário que perdemos não era apenas tijolos e equipamentos. Era a materialização de um futuro onde nossos filhos poderiam se tornar médicos sem deixar suas raízes, onde a pesquisa científica floresceria no solo conquistense, onde o SUS regional se fortaleceria com a excelência acadêmica. Era a promessa de que a dor do sertão encontraria cura nas mãos de quem conhece intimamente cada particularidade desta terra.
Cada leito que não será instalado aqui representa uma vida que poderá não ser salva a tempo. Cada especialidade que não se desenvolverá significa famílias que continuarão a peregrinar por hospitais distantes, carregando no peito a angústia de quem não sabe se chegará a tempo de um milagre.
A Força Política que Nos Falta
Paulo Afonso, com todo o respeito que merece, tem 100 mil habitantes e atenderá 22 municípios. Nós somos quatro vezes maiores e nossa abrangência é infinitamente superior. Mas os números, por si só, não falam nos gabinetes de Brasília. O que fala é a força política — essa energia invisível que transforma necessidades em realidade, que converte diagnósticos em soluções.
E é exatamente aí que reside nossa maior ferida: a ausência de quem lute com unhas e dentes pelos nossos interesses. Quantas outras oportunidades perdemos enquanto nossos representantes dormitam no conforto da inércia política? Quantos outros hospitais, universidades, investimentos se desviaram de nosso caminho por falta de quem soubesse abrir as portas certas e pronunciar as palavras necessárias?
Um Chamado que Ressoa na Alma
A audiência pública proposta para setembro não pode ser vista apenas como mais um evento político. Precisa ser o momento em que Conquista desperta de seu sono dogmático e grita para o mundo: “Estamos aqui! Existimos! E não aceitaremos mais ser tratados como coadjuvantes da nossa própria história!”
É hora de transformar a indignação em mobilização, a revolta em articulação. Cada deputado que for convidado precisa sentir o peso da responsabilidade que carrega. Cada representante do poder executivo deve enxergar nos rostos dos conquistenses a urgência de uma cidade que não pode mais esperar.
O Destino que Podemos Escolher
Conquista tem uma vocação para a grandeza — isso não é megalomania, é reconhecimento de uma realidade geográfica, econômica e social incontestável. Mas vocação sem realização é apenas potencial desperdiçado. E não podemos mais nos permitir esse luxo doloroso.
O campus da UFBA que já existe em nossa cidade é como uma semente plantada em solo fértil, aguardando apenas as condições certas para florescer plenamente. O hospital universitário seria a água e o sol necessários para que essa semente se transforme na árvore frondosa que pode abrigar os sonhos de toda uma região.
A Hora da Escolha
Não podemos mais aceitar que nosso destino seja decidido na ausência de nossa voz. Não podemos mais permitir que a força política de Conquista seja medida pela fraqueza de quem deveria nos representar. É tempo de exigir, de cobrar, de fazer com que cada um dos nossos representantes sinta na pele a responsabilidade de carregar conosco o peso e a glória de ser conquistense.
O hospital universitário que perdemos hoje pode ser reconquistado amanhã — mas apenas se fizermos da nossa dor um combustível para a luta, da nossa indignação uma fonte de energia para a mobilização. Porque no final das contas, uma cidade só é verdadeiramente órfã quando aceita passivamente sua orfandade.
E Conquista é grande demais, tem filhos corajosos demais, para aceitar ser órfã para sempre.





