
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, já não esconde mais suas ambições presidenciais. No entanto, o caminho que escolhe para se consolidar como herdeiro político de Jair Bolsonaro é preocupante e arriscado para a democracia. Ao subir no palanque da Avenida Paulista no Sete de Setembro e disparar ataques diretos ao ministro Alexandre de Moraes, chamando-o de “tirano”, Tarcísio não apenas cede ao radicalismo de uma plateia inflamável, mas abre mão da responsabilidade institucional de um chefe do maior estado do país.
A gravidade de seus pronunciamentos está em dois pontos centrais. O primeiro é a tentativa de desacreditar a Justiça, colocando o Supremo Tribunal Federal como inimigo do povo e não como guardião da Constituição. O segundo, ainda mais delicado, é atrelar sua eventual candidatura ao perdão dos golpistas do 8 de Janeiro, deixando no ar a mensagem de que seu projeto presidencial só prosperará se for sustentado pela anistia aos que atacaram o coração da democracia.
Essa retórica não é apenas um gesto político; é um aceno perigoso. A mensagem implícita é clara: para conquistar a bênção de Bolsonaro e o apoio dos setores mais radicais de sua base, Tarcísio estaria disposto a relativizar crimes contra a ordem democrática. Isso não é pragmatismo político, é vassalagem – e não apenas a Bolsonaro, mas também ao modelo de submissão política que confunde lealdade com obediência cega.
No STF, ministros que até mantinham diálogo com o governador perceberam a guinada de tom. O gesto foi lido como uma aposta no “tudo ou nada”, uma barganha direta pelo selo de candidato oficial da extrema-direita em 2026. Ao colocar em xeque a legitimidade do Judiciário e reduzir a democracia a uma moeda de troca eleitoral, Tarcísio mina a confiança nas instituições que sustentam o Estado de Direito.
A democracia brasileira não pode ser reduzida a cálculo eleitoral. O perdão aos golpistas não é uma questão de conveniência, mas de princípios. O Brasil precisa de líderes que reafirmem o pacto democrático, não de candidatos que o coloquem em leilão.
Se Tarcísio deseja de fato se apresentar como alternativa presidencial, deveria fazê-lo pela via da responsabilidade, do respeito às instituições e da defesa inegociável da Constituição. Radicalizar contra a Justiça pode render aplausos momentâneos na Paulista, mas cobra um preço alto: o da erosão da confiança democrática e o risco de reviver fantasmas que o país ainda não cicatrizou.




