Política e Resenha

ARTIGO – A França, os EUA e a Diplomacia das Indiretas

 

 

(Padre Carlos)

A diplomacia, muitas vezes, se faz mais com gestos do que com palavras. E, quando as palavras são escolhidas para insinuar, o efeito pode ser ainda mais contundente. A publicação da Embaixada da França no Brasil, nesta segunda-feira (11), é um exemplo claro de como a política internacional também se desenrola nas redes sociais, no campo simbólico e nas sutilezas de uma legenda.

Enquanto os Estados Unidos de Donald Trump endurecem a retórica contra o Brasil com tarifaços e pressões sobre o governo Lula e até mesmo sobre o Supremo Tribunal Federal, a França preferiu seguir por outro caminho: o da aproximação pública, calorosa e, acima de tudo, estratégica. No vídeo publicado no Instagram, imagens de abraços entre Lula e Emmanuel Macron, reuniões diplomáticas e um texto provocativo soaram como um recado direto a Washington: “Tem país que não tem parceria forte com o Brasil… que pena que não é o meu caso”.

A escolha da música “Amor traumatizado” como trilha sonora é, por si só, um toque irônico. A França sabe que a relação Brasil-EUA atravessa um momento tenso e aposta em reforçar sua presença justamente quando a Casa Branca insiste em impor obstáculos. O que parece brincadeira de redes sociais é, na verdade, política de Estado, pois transmite ao público brasileiro a ideia de que Paris é um aliado confiável, sensível e presente.

No plano simbólico, a disputa é reveladora. Macron, que já teve atritos com o governo brasileiro no passado, percebeu que o tabuleiro geopolítico atual exige alianças mais firmes. A Europa busca se contrapor ao isolacionismo de Trump e, ao mesmo tempo, abrir espaço nos mercados latino-americanos. Para o Brasil, desgastado pela tensão comercial com os Estados Unidos, a mensagem francesa é um aceno de que há alternativas de cooperação — da ciência ao clima, da cultura à educação.

Mas há algo além do pragmatismo econômico. A diplomacia francesa aposta em um discurso de valores compartilhados, destacando a defesa do meio ambiente, da democracia e da cooperação acadêmica. É uma narrativa que, de certo modo, tenta seduzir a opinião pública brasileira e contrastar com a postura hostil de Trump.

Em outras palavras, enquanto os Estados Unidos levantam barreiras, a França estende a mão. E, na guerra fria das redes sociais, esse gesto não passa despercebido. Afinal, a política internacional de hoje não se joga apenas nos gabinetes e conferências, mas também nos posts e curtidas que circulam com velocidade na internet.

O Brasil, diante desse cenário, precisa olhar com atenção para as entrelinhas dessa disputa. A indireta da França não é apenas uma provocação a Washington — é também uma oportunidade de repensar qual tipo de parceria interessa ao país: a que se impõe pelo peso econômico e pelas pressões de bastidores, ou a que se constrói com símbolos de respeito, cooperação e futuro compartilhado.