
(Padre Carlos)
Em um Congresso Nacional que mais parece um mercado de barganhas, a derrota do governo na urgência da anistia para os envolvidos no 8 de Janeiro não foi um mero acidente de percurso. Foi uma declaração de independência – ou melhor, de infidelidade – por parte do Centrão, esse conglomerado de partidos que se alimentam do erário público enquanto ditam os rumos do poder. PSD, MDB e União Brasil, juntos, entregaram 181 votos contra o governo que os sustenta com cargos, emendas e favores. São três legendas que controlam nove ministérios, e ainda assim optaram por alinhar-se aos que buscam perdoar os golpistas de janeiro de 2023. Lula paga emendas parlamentares, nomeia indicados políticos e, em troca, recebe uma facada pelas costas. É o preço da coalizão em um sistema onde lealdade é moeda de troca, não valor inerente.
Vamos aos fatos, que são cruéis em sua clareza. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em seu terceiro mandato, construiu uma base aliada que, na teoria, deveria blindá-lo das intempéries políticas. Mas o que vemos é uma aliança frágil, sustentada por negociações que mais se assemelham a um leilão do que a um pacto ideológico. O Centrão, mestre na arte da sobrevivência, sabe que o bolsonarismo não morreu – apenas trocou de camisa. Sem o grito histérico de “mito”, figuras como Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, observam o espetáculo de camarote, de olho em 2026. Ele não precisa de retórica inflamada; basta prometer mais emendas, menos fiscalização e um governo que não incomode os interesses estabelecidos. O Congresso já fez sua escolha: prefere um gestor pragmático, que flerta com o conservadorismo sem o escândalo, a uma agenda de esquerda que exige reformas profundas.
Essa traição não é isolada. É o bolsonarismo em metamorfose, mantendo o veneno intacto enquanto adota um verniz de respeitabilidade. Os partidos do Centrão, historicamente oportunistas, votam contra o governo porque percebem a fraqueza do PT. Lula continua barganhando, alegando que precisa da base para governar, mas essa base é um espelho rachado: reflete exatamente o que ele menos quer ver – uma dependência que o enfraquece a cada concessão. Se parlamentares da coalizão viram as costas em votações cruciais, é porque sabem que o Planalto fraqueja. E fraqueza, no jogo político, vira fiança para o Centrão cobrar juros altos: mais cargos, mais verbas, mais impunidade.
Não se engane: isso não é apenas uma crise política passageira. É erosão, o desgaste lento mas inexorável de uma liderança que se recusa a confrontar suas próprias contradições. Lula, o sindicalista que outrora mobilizava massas, agora parece prisioneiro de um presidencialismo de coalizão que o obriga a pedir permissão para quem, no fundo, anseia por seu fim. As eleições de 2026 se aproximam, e o cenário não é animador para o petismo. Tarcísio, com sua imagem de eficiência administrativa e proximidade com o eleitorado conservador, representa o novo rosto do que o establishment deseja: um bolsonarismo light, sem os excessos, mas com a mesma essência antiprogresista.
O que resta a Lula? Parar de barganhar com quem não merece confiança. Reforçar a agenda social, mobilizar a base popular e, quem sabe, arriscar confrontos que definam linhas claras. Continuar assim é convidar o desastre. A derrota da urgência para anistia é um alerta: o Centrão não é aliado; é parasita. E parasitas, quando não controlados, devoram o hospedeiro. Para 2026, Lula precisará de mais do que emendas – precisará de coragem para romper o ciclo vicioso. Caso contrário, o bolsonarismo, camuflado ou não, celebrará sua vitória definitiva.




