Política e Resenha

O Tempo, a Memória e os Sacerdotes que Marcam a História

 

 

 (Padre Carlos)

Há datas que passam pelo calendário sem alarde, mas há outras que nos atravessam, que fazem a memória pulsar como se o tempo se recusasse a seguir em frente. Este fim de semana traz duas recordações profundas: no sábado, 15 de novembro, Monsenhor Bruno Baldacci estaria celebrando 57 anos de sacerdócio. Hoje, 17 de novembro, completam-se 15 anos do falecimento de Padre Marcelo Amorim. Duas histórias, dois sacerdotes, dois amigos. Dois capítulos eternos da vida da Igreja e da minha própria história.

Monsenhor Bruno, italiano de alma missionária, foi mais que pároco — foi pastoreiro, educador, construtor de comunidade, fundador da Paróquia Nossa Senhora das Candeias e figura espiritual decisiva para milhares de fiéis. Para mim, foi professor de latim, orientador, conselheiro… e foi a ele que entreguei, mãos trêmulas e coração pressionado, minha carta de renúncia dos ministérios. Quantos poderiam acolher um momento tão frágil com ternura e respeito? Ele acolheu. Ele orientou. Ele cuidou. Nos primeiros meses após eu deixar a paróquia, sua gentileza foi uma tábua de salvação. Não esqueço.

Recordo também outro pastor, de sorriso sempre às pressas e coração sempre disponível: Padre Marcelo Amorim. Um amigo querido, dedicado, serviçal. Marcelo tinha seus problemas de saúde — e é impossível não pensar que ele deveria ter sido poupado de certas contrariedades que o desgaste institucional impôs. Ele deu tudo de si, até o último instante: sofreu um infarto fulminante logo após celebrar uma missa no distrito de Bandeira do Colônia, em Itapetinga. Morreu como viveu — com a batina no corpo, o povo no coração e o Evangelho na boca.

A memória desses dois padres reacende uma verdade incômoda e urgente: ninguém atravessa a missão sozinho. Precisamos cuidar uns dos outros. O ministério consome, exige, fere, e nem sempre encontra suporte humano ou espiritual. Cuidar de quem cuida deveria ser princípio, não exceção. A Igreja, as instituições, as comunidades — todas precisam aprender que zelo pastoral não se sustenta sem zelo humano.

Hoje, porém, não escrevo para lamentos, mas para gratidão. Para reconhecer legados. Para reafirmar presenças que não se apagam com a ausência física. A fé, o sacerdócio, a amizade e a memória são também uma forma de eternidade — e há pessoas que permanecem vivas porque continuam gerando frutos nos que ficam.

Que Monsenhor Bruno e Padre Marcelo, lá do Paraíso, intercedam por nós — pela Igreja, pelos sacerdotes, pelas famílias, por todos que acreditam que o amor é mais forte que o tempo.

Porque alguns nomes não são lembrados. São convocados.

Monsenhor Bruno Baldacci, PRESENTE!
Padre Marcelo Amorim, PRESENTE!