Por Padre Carlos
Em um país onde a presunção de inocência ainda deveria ser pilar da democracia, assistimos, mais uma vez, ao espetáculo deprimente do jornalismo de insinuação. Não de acusação direta – isso exigiria provas, coragem e responsabilidade. Não: o método preferido agora é o veneno gota a gota, a frase construída para “expor elos”, “revelar proximidades”, “mostrar intimidades”, tudo sem nunca dizer explicitamente o que se quer que o leitor conclua sozinho. É o velho truque do “não sou eu que estou dizendo, é você que está pensando”.
O caso recente envolvendo o ex-prefeito de Salvador, ACM Neto, e o prefeito Bruno Reis é exemplar dessa prática rasteira. Dois dias antes da prisão do empresário Augusto Lima – sócio do Banco Master, investigado por fraudes bilionárias –, os dois políticos usaram um helicóptero de propriedade dele para uma agenda oficial no interior da Bahia. Fato. Registrado, fotografado, público. Nada escondido.
A coluna do Metrópoles, assinada por Andreza Matais, não acusa diretamente. Seria arriscado demais. Em vez disso, titula: “Aeronave usada por ACM Neto expõe elo com executivo do Master preso”. No corpo do texto: “o uso da aeronave expõe uma certa relação de proximidade entre as partes”. Pronto. A semente está plantada. O leitor médio, bombardeado por manchetes sensacionalistas, já faz o serviço: “Se usaram o helicóptero, sabiam do esquema. São cúmplices. São corruptos”.
Isso não é jornalismo. Isso é linchamento moral por procuração.
Porque, convenhamos: em um país onde empresários financiam campanhas, emprestam jatos, helicópteros e até iates para políticos de todos os espectros ideológicos, escolher exatamente este caso para “expor elos” revela mais sobre a seletividade da imprensa do que sobre os envolvidos.
Augusto Lima, o dono da aeronave, é baiano, empresário conhecido, com relações que atravessam o espectro político brasileiro. Tem fotos e proximidade comprovada com Rui Costa, com Jaques Wagner, com o PT baiano histórico. Chegou a ser apontado como amigo próximo de figuras do governo petista na Bahia. Mas, curiosamente, nenhuma coluna de grande veículo nacional se apressou em “expor elos” quando ele aparecia ao lado de governistas. Nenhuma manchete gritou: “Helicóptero de investigado levou petista fulano”. Por quê? Porque o alvo conveniente, neste momento, é a oposição na Bahia.
Se o critério fosse coerente, teríamos uma enxurrada de reportagens semelhantes:
- Quantos políticos de esquerda usaram aeronaves de empresários depois investigados por corrupção na Lava Jato?
- Quantos voaram em jatos de empreiteiras que mais tarde confessaram propinas?
- Quantos posaram sorridentes ao lado de donos de bancos que, anos depois, explodiram em escândalos?
Faríamos isso e não chegaríamos a lugar nenhum, exceto à conclusão óbvia: no Brasil, político anda de avião emprestado como anda de carro oficial. É praxe. É cultura. Pode até ser questionável eticamente em alguns casos, mas não é, por si só, prova de participação em crime.
Amizade não é contagiosa. Usar um helicóptero emprestado não transforma ninguém em cúmplice de fraude bancária. Se fosse assim, metade do Congresso Nacional já estaria presa – e a outra metade fugindo em jatinhos para Malta.
O que incomoda de verdade não é a relação de proximidade (que, repita-se, o próprio empresário mantém com os dois lados do espectro). O que incomoda é a insinuação nas entrelinhas, o subtexto malicioso que transforma um fato banal em suspeita grave, sem uma única linha de prova concreta ligando ACM Neto ou Bruno Reis ao suposto esquema do Banco Master.
Isso é má-fé disfarçada de jornalismo investigativo. É o tipo de prática que erode a credibilidade da imprensa, alimenta o ódio polarizado e transforma veículos de comunicação em instrumentos de guerra política seletiva.
Profissionais sérios de comunicação sabem: noticiar é uma coisa. Insinuar culpa sem provas é outra bem diferente. Uma é dever. A outra é covardia.
Enquanto a imprensa escolher alvos em vez de fatos, o Brasil continuará refém desse jornalismo de torcida, que não informa – apenas incendeia. E nós, leitores, continuaremos pagando a conta com uma democracia cada vez mais enfraquecida pela desconfiança geral.
Que venham as provas. Até lá, que calem as insinuações.





