Política e Resenha
A gênese do poder é a verdade — Padre Carlos
Saúde & Poder · Brasília, maio de 2026
Quem Cuida Também Apanha?
A Mão que Cuida
Também Sangra
A denúncia de agressão contra o senador Magno Malta e o que ela revela sobre o desprezo estrutural à enfermagem brasileira
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Senador Magno Malta negou agressão e disse que teve falha em procedimento durante exame. | Reprodução / Redes sociais
Padre Carlos
Teólogo · Colunista · Vitória da Conquista, Bahia
Maio de 2026
Há algo de profundamente doente em uma sociedade que aplaude profissionais da saúde como heróis durante uma pandemia, mas os abandona silenciosamente quando as luzes das câmeras se apagam. A técnica de enfermagem que denunciou ter sido agredida pelo senador Magno Malta não carrega apenas o peso de uma acusação grave. Ela carrega, junto ao avental, o retrato de uma categoria inteira submetida diariamente à humilhação, ao medo, à precarização e ao desprezo institucional.
O episódio ocorrido no Hospital DF Star não pode ser tratado apenas como um conflito isolado entre paciente e profissional. Se confirmado pelas investigações, ele representa algo muito maior: a banalização da violência contra aqueles que sustentam, com o próprio corpo e a própria saúde mental, um sistema que frequentemente os trata como descartáveis.
Enquanto políticos discursam em plenários sobre moral, família e patriotismo, milhares de técnicos e auxiliares de enfermagem enfrentam jornadas exaustivas, salários aviltantes e condições indignas de trabalho. Muitos sequer recebem o piso salarial garantido por lei. Outros são empurrados para cooperativas que funcionam como mecanismos sofisticados de precarização — instrumentos criados para driblar direitos trabalhistas, fragmentar vínculos e reduzir profissionais da saúde a peças temporárias de uma engrenagem financeira cruel.
E o mais revoltante: essas estruturas operam, muitas vezes, sob o olhar complacente dos próprios órgãos que deveriam fiscalizar e proteger a categoria. Conselhos, entidades e autoridades frequentemente demonstram uma estranha tolerância diante de cooperativas que se transformaram em verdadeiras ferramentas para burlar a legislação trabalhista. O discurso institucional fala em valorização da enfermagem; a prática revela silêncio, omissão e conveniência.
É neste cenário de desgaste permanente que surge a denúncia contra o senador.
O Que Aconteceu no DF Star
Segundo o relato registrado, a técnica realizava um procedimento de rotina durante um exame de angiotomografia quando houve extravasamento do contraste — uma intercorrência conhecida e possível em procedimentos médicos, mesmo quando executados corretamente. O que deveria ser tratado com serenidade e assistência transformou-se, segundo a denúncia, em violência verbal e física. A profissional afirma ter recebido um tapa no rosto, além de insultos humilhantes como “imunda” e “incompetente”.
Agora, afastada do trabalho por recomendação médica, ela se torna símbolo de uma ferida coletiva.
Porque não é apenas sobre um tapa. É sobre o cansaço de mulheres e homens que trabalham sob pressão constante, muitas vezes sem reconhecimento, sendo tratados como invisíveis até o instante em que alguém precisa deles para aliviar a dor, salvar uma vida ou segurar uma mão no corredor frio de um hospital.
A Vitimização do Poder
É impossível ignorar também o componente simbólico da reação pública. Em vez de uma postura serena, cautelosa e respeitosa diante de uma denúncia grave, o senador escolheu imediatamente o caminho da vitimização política.
Declaração do Senador
“A vítima fui eu.”
— Magno Malta (PL-ES), maio de 2026, deslocando o foco da acusação para a dor que teria sentido durante o exame
Ninguém questiona que um procedimento médico possa causar desconforto ou até sofrimento. Pacientes têm o direito de reclamar, questionar e exigir explicações. Mas existe uma fronteira civilizatória que não pode ser ultrapassada: a violência contra quem está trabalhando.
Se as acusações forem confirmadas, a pergunta inevitável emerge com força moral devastadora: que autoridade ética possui um homem que agride uma profissional da saúde para representar o povo no Senado da República? Um mandato parlamentar não pode funcionar como escudo moral. A liturgia do cargo exige equilíbrio, responsabilidade e respeito humano — sobretudo diante daqueles que exercem profissões historicamente desvalorizadas.
Descredibilizar Quem Cuida
Há uma dimensão ainda mais amarga nessa história: a tentativa recorrente de descredibilizar profissionais da enfermagem quando denunciam abusos. Não raro, mulheres da saúde precisam provar duas vezes sua dor. Primeiro diante da violência sofrida. Depois diante da suspeita pública que tenta transformar vítimas em oportunistas, mentirosas ou incompetentes.
Por isso, a nota do Sindicato dos Enfermeiros do Distrito Federal possui um peso importante ao denunciar a campanha difamatória contra a profissional. Quando uma sociedade começa a relativizar agressões contra trabalhadores da saúde, ela inicia um perigoso processo de desumanização coletiva.
A enfermagem brasileira já carrega cicatrizes suficientes
Carrega as madrugadas sem descanso.
Carrega os plantões dobrados.
Carrega os salários atrasados.
Carrega a ansiedade, a depressão e o burnout.
Carrega hospitais lotados, corredores superlotados e emergências colapsadas.
Carrega a memória recente de colegas que morreram durante a pandemia enquanto muitos dos que hoje os atacam estavam protegidos em gabinetes.
E agora, ao que parece, também precisa carregar o medo da agressão física.
Que País Estamos Aceitando Construir?
O Brasil não pode normalizar isso. Não se constrói uma nação civilizada humilhando quem cuida. Não existe patriotismo autêntico em agredir trabalhadores da saúde. Não existe moral cristã em desumanizar uma profissional durante o exercício de sua função.
O que está em julgamento não é apenas a versão de um senador contra a versão de uma técnica de enfermagem. O que está em jogo é o tipo de país que estamos aceitando construir: um país onde o poder grita e a dignidade do trabalhador se cala, ou uma sociedade capaz de proteger aqueles que dedicam a vida ao cuidado do próximo.
Porque quando a mão que cuida começa a sangrar, toda a sociedade adoece junto.
Magno Malta
Saúde Pública
Senado Federal
Violência Institucional
Artigo de Opinião
Padre Carlos
Teólogo · Sacerdote · Articulista
Editor de Política e Resenha — blog de análise política, fé e cultura, sediado em Vitória da Conquista, Bahia. Escreve com a voz da Teologia da Libertação e da tradição profética da Igreja latino-americana.




