
(Padre Carlos)
O silêncio, na política, nunca é neutro. Ele fala, provoca, inquieta e, sobretudo, cria expectativa. O ex-prefeito de Itabuna Geraldo Simões, duas vezes gestor do município e deputado federal por dois mandatos, ainda não se pronunciou oficialmente sobre uma eventual filiação ao PSOL. E exatamente por isso, seu silêncio tem sido mais eloquente do que qualquer discurso apressado.
Geraldo Simões não é um quadro qualquer. É fundador do PT de Itabuna, militante histórico, liderança incontestável do Partido dos Trabalhadores no sul da Bahia durante décadas. Sua trajetória se confunde com a própria história da esquerda regional, com lutas populares, disputas eleitorais duras e um projeto político que, por muito tempo, encontrou abrigo natural no PT. Quando uma liderança dessa estatura se move – ou sinaliza que pode se mover – todo o tabuleiro político se reorganiza.
O PSOL vive um momento de expansão no Brasil e na Bahia. O fortalecimento da sigla, com crescimento do número de filiados e articulações nacionais e estaduais, projeta a possibilidade concreta de conquistar uma ou até duas vagas de deputado federal nas próximas eleições. Nesse cenário, a eventual filiação de Geraldo Simões, prevista para janeiro de 2026, não seria apenas simbólica: seria estratégica. Com sua história, densidade eleitoral e capacidade de diálogo com amplos setores da sociedade, uma vaga praticamente se desenha no horizonte.
Não se trata apenas de nomes ou cálculos eleitorais frios. O PSOL tem buscado se apresentar como um partido que promove debate público, formula propostas para o conjunto da sociedade e constrói estratégias coletivas. O encontro do dia 20, no Beco do Fuxico, em Itabuna, carregou esse simbolismo. Um espaço histórico, onde semanalmente formadores de opinião se reúnem para discutir política e cotidiano, tornou-se palco de um debate que poderá redefinir os rumos da esquerda sul-baiana.
A presença de lideranças como Kléber Rosa e Gustavo Mascarenhas, da executiva estadual, reforça o peso do momento. As articulações nacionais mencionadas — com nomes como Manuela D’Ávila, Jones Manoel e até a possibilidade de Marina Silva disputar o Senado por São Paulo — indicam que o PSOL busca ampliar seu arco político sem abrir mão de sua identidade programática. Na Bahia, com mais de 25 mil filiados e crescimento expressivo em cidades como Itabuna, onde já ultrapassa 2.500, o partido demonstra musculatura organizativa.
A construção da pré-candidatura de Delliana Ricelli, professora formada em Filosofia pela UESC e secretária-geral do diretório municipal, revela que o PSOL também aposta na renovação, no diálogo com a educação, na formação crítica e no protagonismo feminino. Mas a possível chegada de Geraldo Simões, acompanhado de cerca de duzentos militantes petistas, aponta para algo maior: uma reconfiguração do campo progressista local.
O PT, que já foi o espaço natural de acolhimento dessas lideranças, hoje enfrenta crises internas, desgastes acumulados e distanciamentos de suas bases históricas. O PSOL aparece, para muitos, como uma alternativa ética, programática e organizativa. A migração de um nome como Geraldo Simões não seria um gesto de ruptura pessoal, mas um sintoma político. Um sinal de que parte da esquerda busca novos caminhos para continuar relevante, combativa e conectada com as lutas sociais.
Por isso, o silêncio de Geraldo Simões não é omissão. É maturação. É tempo político sendo respeitado. Mas a história ensina que, quando ele falar — seja confirmando ou negando a filiação — o impacto será profundo. Porque não se trata apenas de um homem mudando de partido, mas de uma geração inteira refletindo sobre o futuro da esquerda na Bahia, sobre representatividade, coerência e projeto de sociedade.
Na política, há silêncios que antecedem grandes movimentos. E este, ao que tudo indica, pode ser um deles.




