
Padre Carlos
Na política baiana, nada é dito por acaso — sobretudo quando quem fala é Otto Alencar. Sua declaração de que o PSD “jamais negaria” a legenda a Ângelo Coronel não é frase de circunstância, tampouco gesto de bravata. É um movimento consciente no tabuleiro do poder, desses que parecem discretos, mas alteram toda a lógica do jogo. Otto não fala para a plateia; fala para os jogadores. E, ao fazê-lo, reafirma um princípio que anda raro na política contemporânea: a palavra empenhada como contrato político.
Ao garantir a legenda a Coronel sem hesitação, Otto sinaliza algo maior do que lealdade pessoal. Ele afirma o PSD como partido autônomo, com projeto próprio, capaz de apoiar o governo Jerônimo Rodrigues sem se submeter integralmente à engenharia eleitoral do PT. O recado é claro: a aliança com o Executivo se encerra no Palácio de Ondina. O Senado é outra arena, outro jogo, outro cálculo. Essa separação, longe de ser ruptura, é estratégia de sobrevivência partidária e projeção de médio e longo prazo.
O PSD sabe que, em uma eleição para duas vagas ao Senado, a matemática é tão decisiva quanto a narrativa. Ângelo Coronel não precisa liderar as pesquisas eleitorais para ser competitivo; basta consolidar uma faixa sólida do eleitorado — prefeitos do interior, bases municipais pragmáticas, eleitores que votam mais na figura do candidato do que na sigla. Com sua capilaridade municipal e presença forte fora da capital, o PSD tem musculatura suficiente para sustentar essa candidatura sem romper formalmente com o governo estadual. É o que se chama, no jargão político, de independência controlada.
Nesse cenário, a base governista deixa de ser um bloco monolítico e passa a operar em camadas de interesse. O discurso segue afinado no apoio a Jerônimo, mas, na prática, cada partido testa seu tamanho real nas urnas. O PSD joga fino, silencioso, consciente de que política não se faz apenas com fidelidade, mas com posicionamento estratégico.
É justamente aí que surge o risco maior para a chapa majoritária do PT. A candidatura de Coronel abre uma avenida para a oposição, especialmente para ACM Neto. Sem precisar declarar apoio formal, a oposição pode orientar sua base a concentrar votos em Coronel como forma de veto político. A estratégia é conhecida, eficaz e já testada: em vez de dispersar votos em nomes sem viabilidade, canaliza-se a força eleitoral para um candidato fora do PT, ainda que integrante da base governista, com o objetivo de retirar um dos caciques petistas da disputa.
Jaques Wagner e Rui Costa, figuras centrais do lulismo baiano, carregam também alta rejeição fora de seu campo ideológico. Em uma eleição fragmentada, isso pesa. O risco para o PT não é apenas aritmético — perder uma vaga no Senado —, mas simbólico. Ser derrotado por um aliado que decidiu jogar com autonomia enfraquece a narrativa de hegemonia política construída na Bahia desde 2006.
Otto Alencar entende esse xadrez como poucos. Sua postura serena não é neutralidade; é cálculo frio. Ele permanece aliado ao governo, mas se recusa a aceitar que essa aliança implique abdicar do crescimento do PSD. No tabuleiro que se desenha, Otto joga com peças próprias, Coronel avança em diagonal, e o PT corre o risco de descobrir, tarde demais, que a maior ameaça não vem da oposição declarada, mas da autonomia estratégica de um aliado experiente.
Em política, quase nunca se perde por traição explícita. Perde-se, com muito mais frequência, por subestimar quem decidiu, silenciosamente, jogar o próprio jogo — com método, paciência e visão de poder.




