Política e Resenha

O Xeque-mate de Kassab: a Aliança que Pode Redesenhar o Brasil

 

 

 

O tabuleiro político brasileiro, conhecido por sua volatilidade crônica e por viradas que beiram o improvável, parece à beira de testemunhar uma das manobras mais sofisticadas desde a redemocratização. No centro dessa movimentação não está um ideólogo, nem um líder carismático de massas, mas o maior expoente do pragmatismo nacional: Gilberto Kassab.

A hipótese de o líder do PSD ocupar — ou dividir — o espaço da direita e da ultradireita como parte de uma engenharia política destinada a favorecer a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva não é uma simples costura eleitoral. Trata-se de algo mais profundo: uma demolição controlada da direita radical e, simultaneamente, uma reconfiguração do centro-direita brasileiro.

Há algum tempo, a percepção de que a família Bolsonaro traiu a direita tradicional e o centro deixou de ser sussurro de bastidor. Ao tentar impor nomes de “puro sangue” — como a insistência em Flávio Bolsonaro e o isolamento de quadros técnicos e políticos mais amplamente aceitos — o clã promoveu a própria asfixia. Desidratou projetos viáveis, especialmente aqueles que gozariam de confiança imediata do mercado financeiro, do empresariado e do agronegócio, como o do governador paulista Tarcísio de Freitas.

Tarcísio, à frente do estado mais rico do país, paga hoje o preço de uma escolha estratégica discutível. Ao optar por permanecer sob a sombra de um Jair Bolsonaro inelegível, juridicamente acuado e politicamente tóxico, abdica do protagonismo que o cargo lhe permitiria. A postura, descrita por críticos como a de um “vassalo”, escancara o vazio deixado por uma direita que se recusa a se reinventar.

É justamente nesse vácuo que Kassab enxerga uma oportunidade histórica. Se o centro não encontra espaço sob a hegemonia bolsonarista, ele o encontrará onde sempre encontrou poder real no Brasil: na governabilidade. E, neste momento, a governabilidade passa por Lula. Não por acaso, o PSD já oferece apoio integral ao presidente em regiões estratégicas como o Nordeste — com destaque para Bahia e Piauí — consolidando uma base que vai muito além do discurso ideológico.

Não se deve confundir a discrição de Kassab com irrelevância. O PSD saiu das eleições municipais de 2024 como o verdadeiro gigante das urnas, conquistando cerca de 900 prefeituras e ampliando bancadas decisivas no Congresso Nacional. Essa capilaridade territorial e institucional é exatamente o que Lula precisa para transformar uma disputa de segundo turno em uma vitória líquida ainda no primeiro.

Uma articulação entre Kassab e Lula não seria apenas uma aliança de conveniência; seria, na prática, um seguro de vida para a governabilidade. Com Kassab operando por baixo do pano — como sempre fez — Lula isolaria candidaturas extremistas, reduziria a oposição a ruído e deixaria a extrema direita falando para si mesma. O mercado, hoje desconfiado dos tropeços fiscais e das tensões retóricas, encontraria no PSD um fiador institucional, capaz de oferecer previsibilidade e equilíbrio.

A estratégia é cirúrgica. Ao atrair o PSD para um projeto nacional desse porte, Lula retira o oxigênio da oposição parlamentar e empurra o bolsonarismo para a marginalidade política. O cenário que se desenha é devastador para o clã:

  • Jair Bolsonaro, encurralado pelo Judiciário e fora do jogo eleitoral;

  • Flávio e Eduardo Bolsonaro, sem controle de máquinas estaduais ou federais e sob constante pressão institucional;

  • Carlos Bolsonaro, ameaçado de isolamento político, sem a retaguarda partidária que hoje o PSD domina e rejeitado em territórios onde tenta se projetar.

A união entre PT e PSD tem o potencial de “matar” a força da extrema direita não pela repressão, mas pela reintegração do centro-direita ao núcleo do poder. É a substituição do confronto ideológico permanente por um projeto de administração pragmática, no qual direita e centro aceitam governar ao lado da esquerda em nome da estabilidade do sistema.

Conclusão

Se Gilberto Kassab estiver, de fato, operando esse projeto, confirmará sua reputação como o maior estrategista da política brasileira contemporânea. O Brasil deixaria de ser um campo de batalha de “nós contra eles” para se tornar o palco de um hiper-presidencialismo de coalizão, robusto, amplo e funcional.

Para o clã Bolsonaro, restaria o exílio político. Para o país, a grande incógnita permanece: essa mega-aliança entregará a eficiência prometida ou será apenas mais um capítulo da eterna sobrevivência mútua das elites políticas brasileiras?

No xadrez do poder, Kassab parece jogar não para empatar, mas para dar xeque-mate.