
(Padre Carlos)
Há decisões administrativas que parecem frias no papel, mas revelam, na essência, a temperatura humana de quem governa. Suspender a cobrança da Tarifa de Pós-Utilização da Zona Azul não é apenas um ato burocrático. É um gesto político. E, mais do que isso, é um gesto de escuta.
Em tempos de desconfiança generalizada na política brasileira, quando o cidadão se sente frequentemente esmagado por taxas, multas e regras incompreensíveis, a atitude da prefeita Sheila Lemos sinaliza algo que anda raro: sensibilidade administrativa.
Governar não é apenas aplicar decretos; é interpretar o pulso da cidade. E Vitória da Conquista tem pulso forte. É uma cidade de trabalhadores, comerciantes, consumidores que atravessam o centro com pressa, mães que param o carro para levar o filho ao médico, idosos que vão ao banco, jovens que circulam pelo comércio. Cada vaga de estacionamento carrega histórias anônimas. Cada cobrança mal compreendida gera indignação silenciosa.
A Tarifa de Pós-Utilização nasceu como alternativa educativa, uma tentativa de evitar multas graves imediatas. A intenção parecia justa. Mas a prática revelou falhas. Determinações não cumpridas pela concessionária, insatisfações populares, reclamações do comércio. E foi nesse ponto que a liderança se revelou.
Há uma diferença entre governar com rigidez e governar com cuidado. A suspensão por tempo indeterminado demonstra algo profundamente feminino no exercício do poder: a disposição de ouvir antes de insistir. O diálogo com entidades como a CDL e a Acevic, os ajustes já realizados — ampliação do tempo de permanência, redução de valores, cancelamento de cobranças — mostram que não se trata de teimosia administrativa, mas de responsabilidade pública.
Boa gestão pública não é aquela que jamais erra. É aquela que corrige o rumo quando percebe o desalinho. Transparência, responsabilidade administrativa e respeito aos usuários não podem ser apenas palavras em nota oficial; precisam se traduzir em decisões concretas. E foi isso que ocorreu.
Há um simbolismo forte quando uma prefeitura exige relatório detalhado da empresa concessionária e determina o cumprimento imediato das novas diretrizes. Isso comunica à população que o poder concedente não está submisso ao poder econômico. A autoridade pública reafirma seu papel fiscalizador.
Em uma cidade do porte de Vitória da Conquista, onde o comércio é vital para a economia local e o estacionamento rotativo organiza o fluxo urbano, decisões sobre Zona Azul não são pequenas. Elas tocam diretamente o bolso do cidadão e o funcionamento da cidade. Suspender a cobrança, diante de inconsistências, é reconhecer que o interesse coletivo deve prevalecer sobre qualquer contrato.
E talvez aqui esteja o ponto mais relevante: política com escuta gera confiança. Confiança gera estabilidade. Estabilidade fortalece a cidade.
O gesto da prefeita não resolve todos os problemas urbanos. Mas envia uma mensagem poderosa: o governo municipal está atento. Está disposto a rever. Está aberto ao diálogo. E, num Brasil marcado por polarizações e radicalismos, isso não é pouco.
Vitória da Conquista precisa de gestão técnica, sim. Precisa de planejamento urbano, equilíbrio fiscal, responsabilidade administrativa. Mas precisa também de humanidade na condução das decisões.
Porque cidade não é apenas asfalto, decreto e arrecadação. Cidade é gente.
E quando o poder público aprende a ouvir a voz que vem das ruas — dos comerciantes, dos motoristas, dos trabalhadores — ele deixa de ser distante e passa a ser parceiro.
Governar é administrar.
Mas, antes de tudo, governar é cuidar.




