
Padre Carlos
A política baiana nunca foi um lago parado. Ela é rio. E rio na Bahia tem correnteza invisível.
A força política de ACM Neto empurra, neste momento, uma disputa que parece discreta, mas é estratégica: a escolha do vice-governador na chapa da oposição. Não se trata de protocolo. Trata-se de sobrevivência eleitoral, cálculo territorial e leitura fria de cenário.
No centro dessa engrenagem estão dois nomes de peso: José Ronaldo, prefeito de Feira de Santana, e Sheila Lemos, prefeita de Vitória da Conquista.
E aqui começa a tensão.
Feira é o segundo maior colégio eleitoral da Bahia. Conquista é o terceiro. Salvador lidera. Na matemática eleitoral, isso é dado técnico. Na política real, é poder bruto.
José Ronaldo é apontado como favorito. Não necessariamente por ser a melhor opção programática, mas porque há um temor claro: perder Feira de Santana seria abrir uma fissura perigosa na estrutura oposicionista. Política também é contenção de danos. É evitar dispersão.
Já Sheila Lemos foi reeleita com quase 60% dos votos no primeiro turno. Isso não é detalhe. É capital político consolidado. É legitimidade nas urnas. E, sobretudo, é fidelidade ao projeto oposicionista. Mesmo fora da vice, dificilmente romperá. Esse fator altera o tabuleiro.
A pergunta, então, muda de forma.
Não é apenas: quem soma mais?
É: quem pode causar menos ruptura?
Existe ainda uma variável que muitos subestimam — e pagam caro por isso: o eleitorado feminino. Mulheres representam mais de 50% do eleitorado baiano. Elas decidem eleições. Influenciam famílias. Movimentam redes sociais. Organizam debates nas igrejas, nas escolas, nos bairros.
Uma vice mulher, do interior, com aprovação consolidada, altera narrativa, amplia discurso e cria identificação.
Sheila reúne três ativos estratégicos claros:
• Representatividade feminina
• Força do terceiro maior colégio eleitoral
• Gestão aprovada nas urnas
Isso não é romantização. É lógica eleitoral.
Mas a política é feita de escolhas difíceis.
Se ACM Neto optar por José Ronaldo, reforça Feira e neutraliza risco imediato de dissidência. Se optar por Sheila, amplia o alcance territorial, fortalece o discurso de renovação política na Bahia e dialoga com o eleitorado feminino do interior.
E há ainda outro ponto delicado: Sheila foi eleita para quatro anos. Deixar o cargo até abril, prazo de desincompatibilização para disputar o governo da Bahia, não é decisão leve. O eleitor pode perguntar: “E a cidade?” A tensão é legítima.
Mas também é legítimo reconhecer que lideranças, em certos momentos históricos, são chamadas a voos maiores.
A política vive de aritmética.
A história vive de símbolo.
ACM Neto já sinalizou que busca alguém com forte representatividade no interior, capacidade de articulação e conhecimento profundo da Bahia. O perfil está desenhado. O nome ainda não.
Nos bastidores, outros atores orbitam o cenário: prefeitos influentes, ex-prefeitos, deputados. A disputa não é apenas numérica; é narrativa. É enquadramento estratégico.
Em contextos de polarização política, cada ponto percentual importa. Vice pode não ganhar eleição sozinho. Mas pode impedir que ela seja perdida.
A Bahia vive um momento decisivo. O debate entre continuidade e mudança está posto. Inserir um nome feminino, interiorano e com alta aprovação popular muda o eixo simbólico da campanha.
No fim, a escolha não será apenas matemática.
Será sobre risco.
Será sobre fidelidade.
Será sobre expansão territorial.
Será sobre leitura de futuro.
Como nos rios caudalosos do interior baiano, não é a superfície que define o destino — são as correntes profundas que moldam o curso.
A decisão está nas mãos de ACM Neto.
Mas as consequências correrão por toda a Bahia.




