Política e Resenha

ARTIGO – Da Base ao Isolamento: O Erro Político que Antecipou a Aposentadoria (Padre Carlos)

 

 

A política não perdoa amadorismo emocional. Ela é feita de cálculo, estratégia, tempo e, sobretudo, poder. Quem ignora essa engrenagem termina atropelado por ela.

Lembrei-me de Ulysses Guimarães ao observar certos movimentos recentes no tabuleiro político baiano. Ulysses, com sua franqueza quase desconcertante, dizia: “Sou louco pelo poder, seduzido pelo poder e é para isso que eu vivo”. Muitos fingiam escândalo, mas ali estava uma verdade estrutural da política brasileira: poder não é pecado; é instrumento. O erro não está em desejá-lo, mas em desperdiçá-lo.

Outra frase do velho “Senhor Diretas” ecoa com força ainda maior: “Não se pode fazer política com o fígado, conservando rancor e ressentimentos na geladeira”. Eis o ponto central. Quando decisões estratégicas passam a ser movidas por mágoas, rompimentos passionais ou ressentimentos acumulados, o preço quase sempre é alto — e público.

Foi exatamente isso que vimos quando um ex-vice-governador decidiu deixar a base governista para se aventurar na oposição. Politicamente, foi um erro grave. Ao abandonar a estrutura do governo, perdeu poder de influência, espaço institucional, protagonismo e capacidade real de articulação. Na política contemporânea — especialmente na política baiana — estar na base significa acesso a recursos, articulação federativa, capital político e visibilidade estratégica. Fora dela, o discurso pode até soar mais inflamado, mas o poder concreto evapora.

A consequência é previsível: perda de prestígio, isolamento gradual e diminuição do peso nas decisões centrais. Política não é apenas narrativa; é correlação de forças.

Hoje, muitos observadores veem Diogo Coronel caminhando por trilhas semelhantes. A história parece se repetir com atores diferentes e o mesmo enredo. Romper por cálculo mal dimensionado ou por divergências mal administradas pode significar abrir mão de protagonismo em troca de um espaço incerto na oposição.

A política brasileira é marcada por ciclos. Quem sai do centro do poder raramente retorna com a mesma força. E isso não é questão ideológica — é matemática eleitoral, é engenharia de alianças, é estratégia de sobrevivência.

Nesse contexto, chama atenção o anúncio de João Leão ao portal Bahia Municípios sobre sua aposentadoria da vida eleitoral. Leão construiu uma trajetória robusta: foi prefeito de Lauro de Freitas, deputado federal por seis mandatos, vice-governador por dois. Independentemente de avaliações ideológicas, manteve-se próximo ao centro das decisões durante décadas. Soube circular no núcleo do poder.

A anunciada aposentadoria não pode ser lida apenas como encerramento natural de ciclo, mas como consequência direta de um desgaste político acumulado. Ao deixar a base do governo, abriu mão do espaço onde o poder efetivamente se exerce — e essa decisão cobrou seu preço. Fora do núcleo de articulação, perdeu protagonismo, influência e capacidade de interferir nos rumos estratégicos do Estado. O distanciamento do centro do poder provocou erosão de prestígio, enfraquecimento eleitoral e redução de relevância no cenário político. O que hoje se apresenta como despedida voluntária carrega, na verdade, as marcas de um erro estratégico que acelerou o processo de isolamento e tornou a aposentadoria menos uma escolha e mais o resultado inevitável de um desgaste acumulado.

A política baiana vive um momento de rearranjos, disputas por protagonismo e redefinição de alianças estratégicas. Nesse cenário, abandonar a base governista pode significar abrir mão da máquina administrativa, da influência regional e da musculatura eleitoral — especialmente em tempos de forte polarização política e disputa por hegemonia estadual.

A lição de Ulysses permanece atual: ressentimento não constrói maioria. Política exige estômago frio, não fígado quente.

O poder, gostemos ou não, continua sendo o eixo central da atividade política. Quem o despreza em nome de impulsos momentâneos termina falando alto — mas falando sozinho.

E a história, implacável, registra os erros para que outros aprendam. O problema é que, na política, poucos aprendem com os erros alheios. Quase todos preferem cometê-los novamente.