
Há momentos na política brasileira em que a ironia não precisa de cronista. Ela se escreve sozinha. Basta que a gente tenha memória — essa senhora tantas vezes maltratada pelo noticiário ligeiro e pelas conveniências partidárias.
Quando li, em um blog de Salvador, que o ex-prefeito de Xique-Xique, Reinaldinho Braga, seria expulso do Movimento Democrático Brasileiro um dia depois de comparar a chapa governista a uma “tecnologia 4G”, confesso que senti aquele déjà-vu moral que só a política brasileira é capaz de produzir. A decisão de abrir o processo de expulsão foi anunciada, com ares de autoridade ética, por ninguém menos que Geddel Vieira Lima, presidente de honra da sigla.
Sim, o mundo dá voltas.
Em agosto de 2015, nas ruas inflamadas por cartazes contra a corrupção, lá estava Geddel, inflamado também. Seu discurso era um libelo contra “um governo incompetente”, “um país dilacerado pela crise”, “salários corroídos pela inflação”, “roubo”, “assalto aos cofres públicos”. O tom era de indignação cívica. A retórica, de pureza moral. O alvo, claro, era o governo petista.
Nada contra a crítica política — ela é o oxigênio da democracia. O que causa perplexidade é o contraste entre o discurso moral de ontem e o rigor seletivo de hoje. O que exatamente justificaria a expulsão sumária de um correligionário por uma metáfora tecnológica? Desde quando comparar uma chapa a “4G” configura heresia ideológica capaz de macular a honra partidária?
A política, infelizmente, tem essa mania de tratar divergência como traição e memória como inconveniente.
Não se trata aqui de defender Reinaldinho Braga. Nem de atacar Geddel Vieira Lima por esporte retórico. Trata-se de apontar uma incoerência estrutural que atravessa partidos, espectros ideológicos e biografias públicas: o moralismo é sempre mais severo quando dirigido ao outro.
Quando convém, invoca-se o clamor das ruas. Quando interessa, ergue-se a espada da disciplina partidária. Quando necessário, reescreve-se o passado como se o eleitor fosse desprovido de arquivos mentais — como se fôssemos todos distraídos, desatentos ou, pior, ingênuos.
Mas o eleitor não é bobo. Pode até perdoar, mas dificilmente esquece.
Há algo de simbólico nessa história. Um ex-prefeito elogiando a modernidade da chapa governista e, no dia seguinte, sendo enquadrado pelo partido que, anos antes, empunhava a bandeira da moralidade nas ruas. A “tecnologia 4G” virou motivo de processo disciplinar. A indignação de 2015 virou lembrança distante. E o Brasil, mais uma vez, assiste à coreografia conhecida: alianças flexíveis, memórias elásticas, coerências provisórias.
A política brasileira precisa urgentemente de menos teatralidade e mais honestidade intelectual. Se a divergência interna é crime, que se diga claramente. Se o partido exige alinhamento automático, que o declare sem subterfúgios. O que não dá é para vestir a toga da moralidade apenas quando ela serve ao jogo circunstancial.
O mundo gira, é verdade. Mas a memória também deveria girar — e voltar.
Porque democracia não é só o direito de ir às ruas gritar contra a corrupção. É também o dever de sustentar coerência quando os ventos mudam. É fácil acusar governos de incompetência e corrupção quando se está na arquibancada. Difícil é manter o mesmo rigor quando se ocupa o centro do palco.
Talvez o episódio de Xique-Xique seja pequeno no mapa nacional. Mas ele revela uma verdade grande: a política brasileira ainda sofre de amnésia seletiva. E enquanto a memória for tratada como detalhe, continuaremos a assistir a esses ciclos de indignação performática seguidos de disciplina conveniente.
O mundo dá voltas. Mas a história — essa, sim — cobra coerência.




