
Autor: Padre Carlos
Há algo de profundamente revelador — e constrangedor — na cena política que se desenha quando deputados, recém-saídos das urnas com a testa marcada pela derrota local, resolvem agir como se a vontade popular fosse apenas um detalhe burocrático.
Reúnem-se com o governador para discutir os estragos da chuva em Vitória da Conquista. A pauta é nobre. A tragédia climática exige ação. Ninguém discute isso. O problema não é a chuva. O problema é o guarda-chuva político aberto sobre a cabeça errada.
Em qualquer república minimamente funcional — e insisto na palavra “república” — há uma hierarquia institucional clara. No município, a maior autoridade política é a prefeita. Foi eleita. Recebeu voto. Foi legitimada pela maioria. Pode-se gostar ou não, mas democracia não é concurso de simpatia; é respeito à regra do jogo.
Quando deputados da oposição — ou mesmo alguns que deveriam saber o tamanho do próprio cargo — tratam de contornar a autoridade municipal para posar de protagonistas, o que temos não é zelo pela cidade. É ressentimento mal digerido.
Como pedir votos ao conquistense se, na primeira oportunidade, desprezam a vontade expressa nas urnas? A eleição não é um detalhe decorativo. É um pacto civilizatório. O eleitor disse quem governa o município. Ignorar isso é ignorar o próprio eleitor.
E aqui mora o ponto central: não se trata de disputa administrativa. Trata-se de respeito institucional.
A política brasileira sofre de uma doença antiga: a incapacidade de aceitar derrota. A surra eleitoral — sim, surra — precisa ser metabolizada com maturidade. O que não pode é ficar atravessada na garganta, produzindo azia institucional. Quem governa não é quem perdeu. Simples assim.
Ao se comportarem como se fossem interventores informais, esses parlamentares não fortalecem a cidade; enfraquecem a própria biografia. A história política é impiedosa com aqueles que confundem mandato com revanche.
Vitória da Conquista precisa de cooperação federativa, não de competição egóica. Precisa de alinhamento institucional, não de disputa por fotografia oficial. Em momentos de calamidade, a liturgia do cargo exige grandeza. Quem não entende isso talvez nunca tenha entendido o que é república.
E há algo ainda mais grave: o eleitor observa. O cidadão comum — aquele que enfrenta alagamento, lama, prejuízo — percebe quando a tragédia vira palco. Ele sente quando a dor coletiva é usada como cenário para ajustes de contas pessoais.
Política feita com o fígado produz discursos inflamados e decisões equivocadas. Política feita com a cabeça produz soluções.
Desrespeitar a autoridade legitimamente eleita é, em última instância, desrespeitar o eleitor conquistense. E isso, convenhamos, é um péssimo cartão de visitas para quem, amanhã, precisará bater à mesma porta pedindo voto.
A democracia exige memória. E o eleitor, felizmente, também tem.




