(Padre Carlos)
A política, quando se aproxima de uma eleição, revela o que muitas vezes se tenta esconder nos discursos oficiais: as alianças não são feitas apenas de convicções, mas de poder, espaço e sobrevivência eleitoral. E na Bahia, neste momento, o que se vê é exatamente isso — uma disputa silenciosa, porém cada vez mais visível, dentro da própria base do governo.
As declarações recentes de Geddel Vieira Lima não são apenas desabafos de um cacique político ressentido. Elas são um sintoma claro de uma tensão que cresce nos bastidores da política baiana: o desconforto do MDB dentro da aliança que sustenta o governo estadual.
Quando Geddel afirma que o MDB não senta à mesa para negociar um espaço que conquistou nas urnas, ele está dizendo algo muito simples em linguagem política: o partido não aceita ser tratado como coadjuvante.
E há uma lógica nisso.
O MDB, historicamente, sempre foi um partido de peso na política brasileira e também na Bahia. Mesmo com todas as crises e escândalos que marcaram sua trajetória recente, a legenda ainda possui capilaridade municipal, prefeitos, vereadores e influência em diversas regiões do estado.
Na política real — aquela que decide eleições — isso vale muito.
Por isso, quando surge a ideia de discutir a vaga ao Senado sem considerar automaticamente o MDB, o que se cria é um ambiente de desconfiança.
A irritação de Geddel tem endereço político claro.
Nos bastidores, muitos atribuem ao ministro Rui Costa a condução das articulações da chapa governista. Rui, que saiu do governo estadual para ocupar um dos postos mais poderosos do Planalto, continua sendo uma das figuras centrais da engenharia política do grupo.
Mas a política tem uma regra antiga: quanto mais poder alguém concentra, mais resistências começa a provocar.
E é nesse ponto que a tensão aparece.
O MDB quer respeito político. Quer ser ouvido. Quer participar da decisão. O partido argumenta que tem sido leal ao projeto político do grupo governista e que essa lealdade deveria se traduzir em espaço real na chapa majoritária.
Geddel lembrou, inclusive, que o MDB da Bahia teve papel relevante em debates internos do partido em nível nacional, especialmente quando setores da legenda discutiam uma postura de oposição ao governo Lula. Segundo ele, os diretórios nordestinos, e particularmente o da Bahia, foram decisivos para impedir um rompimento.
Essa lembrança não é casual.
Na política, lealdade quase sempre é lembrada quando alguém sente que ela não está sendo devidamente recompensada.
Ao mesmo tempo, há outro fator que aumenta a pressão dentro da base governista: o cenário eleitoral.
A oposição, liderada por ACM Neto, manteve forte presença nas principais cidades da Bahia. Esse dado preocupa estrategistas do governo porque revela algo importante: apesar da vitória estadual em 2022, o mapa político do estado ainda está dividido.
Grandes centros urbanos continuam sendo territórios eleitorais disputados.
Isso significa que qualquer rachadura na base governista pode ter impacto real nas eleições.
E é exatamente esse o risco que começa a aparecer.
Se o MDB se sentir marginalizado na construção da chapa, uma parte de seus diretórios pode simplesmente esfriar o apoio à campanha do governador Jerônimo Rodrigues. Na política, isso não significa necessariamente romper oficialmente — às vezes significa algo mais silencioso e mais perigoso: apoio morno, campanha fraca, militância desmobilizada.
Em outras palavras, uma aliança que existe no papel, mas não nas urnas.
Outro elemento que tornou esse cenário ainda mais delicado foi a disputa pela vaga ao Senado que levou a saida do grupo de Coronel do projeto. Apesat dessa cadeira tem peso estratégico enorme, não podemos negar os estragos que fez. Não se trata apenas de prestígio político, mas de influência nacional e poder institucional.
Por isso, quando Geddel ironiza o que chama de “ti-ti-ti político”, ele está criticando justamente a tentativa de resolver uma disputa dessa magnitude por meio de vazamentos, blogs ou notícias plantadas.
Na visão dele, esse tipo de negociação deve acontecer à mesa, cara a cara, entre lideranças políticas.
E aqui está o ponto central da crise.
A base governista da Bahia ainda existe. Mas ela já não funciona com a mesma harmonia de antes.
O que antes era uma coalizão sólida hoje começa a revelar fissuras. Pequenas, talvez. Mas visíveis.
A política é cheia de paradoxos.
Às vezes, os adversários mais perigosos não estão do outro lado do campo. Estão dentro da própria aliança.
E é exatamente isso que começa a acontecer na política baiana.
Se essas tensões não forem resolvidas com habilidade, diálogo e respeito ao peso de cada partido, a chapa governista pode entrar na próxima eleição carregando algo muito mais perigoso que a oposição.
A desconfiança interna.
E na política, poucas coisas são tão devastadoras quanto isso.




