
Padre Carlos
A política da Bahia começa a ganhar contornos cada vez mais interessantes. Nos bastidores, onde as decisões verdadeiras são tomadas longe dos microfones e das solenidades oficiais, um novo roteiro começa a ser escrito. E curiosamente ele tem duas protagonistas.
Duas mulheres.
Duas trajetórias.
Um mesmo tabuleiro político.
Tudo começou quando o nome da prefeita de Vitória da Conquista passou a circular com força como possível vice na chapa de ACM Neto nas próximas eleições. A movimentação não foi apenas uma escolha administrativa ou partidária. Foi, acima de tudo, um movimento estratégico.
Vitória da Conquista não é apenas mais um município da Bahia. É o coração político do Sudoeste baiano, uma região decisiva em qualquer disputa estadual. Colocar uma liderança local na chapa significaria, ao mesmo tempo, consolidar território e falar diretamente ao eleitorado que decide eleições.
A reação do outro lado do tabuleiro não demorou.
Quando a política sente o cheiro de movimento, ela se reorganiza rapidamente. E foi exatamente isso que aconteceu dentro da base do governador Jerônimo Rodrigues.
Nos últimos dias, o cenário ganhou novos contornos após o PSD começar a circular com força como possível partido indicado pelo PT para ocupar a vaga de vice na chapa governista. Essa mudança de vento trouxe consigo uma consequência quase inevitável: o enfraquecimento da permanência de Geraldo Júnior, do MDB.
Nos corredores da política baiana, a chamada “fritura” já é comentada sem muito constrangimento. A permanência do MDB na vice passou a ser tratada como um capítulo prestes a ser encerrado.
E quando um espaço político se abre, rapidamente surgem os nomes interessados em ocupá-lo.
Nesse momento, três lideranças aparecem no radar do PSD: Ivana Bastos, Adolfo Menezes e Alex da Piatã.
Cada um com seu peso político.
Cada um com suas ambições.
Mas é o nome de Ivana Bastos que começa a ganhar uma dimensão especial dentro dessa disputa.
Atual presidente da Assembleia Legislativa da Bahia, Ivana não apenas ocupa um dos cargos mais relevantes do Legislativo estadual. Ela também carrega um elemento estratégico que, na política, muitas vezes vale ouro: representação regional.
Ivana Bastos é do Sudoeste.
E isso muda tudo.
Se a oposição aposta na prefeita de Vitória da Conquista como força feminina e regional para consolidar influência naquele território, a escolha de Ivana Bastos poderia funcionar como um verdadeiro contrapeso político.
Seria quase uma resposta simétrica.
Uma mulher de um lado.
Outra mulher do outro.
Uma disputa que ultrapassa os partidos e entra no campo da simbologia política.
Enquanto isso, os outros nomes também se movimentam. Adolfo Menezes, ex-presidente da Assembleia, mantém ambições que passam pelo Tribunal de Contas do Estado, o que poderia tornar sua entrada na disputa eleitoral uma mudança de rota significativa. Já Alex da Piatã, muito próximo do senador Otto Alencar, aparece como uma peça de confiança dentro do tabuleiro do PSD.
Mas a decisão final, todos sabem, não está apenas nas mãos das circunstâncias.
Ela passa inevitavelmente pelo senador Otto Alencar, líder do PSD na Bahia e uma das figuras mais experientes do xadrez político estadual. Será ele quem baterá o martelo.
E quando Otto decide, a política baiana costuma ouvir.
O fato é que, silenciosamente, um novo roteiro começa a se desenhar. Um roteiro em que o protagonismo feminino ganha espaço em um cenário historicamente dominado por lideranças masculinas.
Talvez ainda seja cedo para cravar nomes definitivos.
Mas uma coisa já começa a se tornar evidente.
A próxima eleição na Bahia pode acabar sendo marcada por uma narrativa poderosa: duas mulheres, dois projetos políticos e um mesmo território disputado voto a voto.
No fim das contas, talvez a política baiana esteja prestes a contar uma história rara.
Duas mulheres.
Um só enredo.
E um mesmo coração chamado Bahia.




