
Por Padre Carlos
Há momentos na política em que os números deixam de ser apenas números. Eles passam a contar uma história — e, às vezes, a antecipar um desfecho. A mais recente pesquisa da Séculus Análise e Pesquisa, registrada no TSE, faz exatamente isso: acende um alerta vermelho no Palácio de Ondina e redesenha o tabuleiro eleitoral da Bahia com uma força que não pode ser ignorada.
Estamos diante de uma possível virada eleitoral na Bahia — e não é qualquer virada.
A fotografia que inquieta o poder
No cenário estimulado, ACM Neto aparece com 48,28% das intenções de voto, enquanto o governador Jerônimo Rodrigues soma 31,15%. A diferença não é apenas numérica; ela é simbólica. Pela primeira vez em meses, o ex-prefeito de Salvador não apenas encosta — ele dispara.
Se considerarmos apenas os votos válidos, o cenário sugere algo ainda mais contundente: vitória em primeiro turno. E aqui reside o primeiro gatilho de urgência: quando uma eleição começa a se resolver antes mesmo da campanha engrenar, o sistema político inteiro entra em estado de alerta.
Mas o dado mais sensível talvez não esteja na intenção de voto.
Está na rejeição.
Jerônimo Rodrigues enfrenta 37,96% de rejeição, contra 22,65% de ACM Neto. Em política, rejeição alta não é apenas um problema — é um teto. E tetos, como se sabe, limitam sonhos de reeleição.
O peso invisível da cadeira
Diferentemente de 2022, quando herdou o capital político de Rui Costa, Jerônimo agora carrega o peso integral do cargo. E governar, como ensina a história política brasileira, é sempre mais difícil do que prometer.
Os dados de avaliação reforçam essa tensão:
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Aprovação: 38,61%
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Desaprovação: 45,36%
Mais do que números frios, isso revela um sentimento difuso: uma parcela relevante do eleitorado ainda não está convencida — e outra já está decididamente insatisfeita.
E aqui entra um elemento psicológico poderoso no eleitorado: o voto arrependido. Quando o adversário é o mesmo da eleição anterior, a comparação se torna inevitável. E, em muitos casos, implacável.
O fator ACM Neto: resiliência e timing
ACM Neto não é apenas um candidato competitivo. Ele é, neste momento, o principal vetor de mudança percebida.
Depois de perder em 2022 mesmo liderando parte das pesquisas, sua atual vantagem carrega um componente estratégico novo: aprendizado eleitoral. Sua campanha tende a ser mais calibrada, mais cautelosa e, sobretudo, mais focada em converter liderança em vitória — algo que lhe escapou no passado.
Além disso, sua menor rejeição sugere um ativo valioso: capacidade de expansão. Em eleições majoritárias, cresce quem ainda tem para onde crescer.
O xadrez do PT: lealdade ou pragmatismo?
Se há um núcleo dramático nessa eleição, ele está dentro do próprio PT.
De um lado, a lealdade institucional a Jerônimo Rodrigues, governador em exercício. De outro, o pragmatismo eleitoral, que começa a sussurrar um nome com força crescente: Rui Costa.
Ex-governador, atual ministro da Casa Civil, Rui aparece como uma espécie de “plano B premium”. Sua eventual entrada na disputa poderia reconfigurar completamente o cenário, repetindo uma lógica já observada em outros estados do Nordeste.
Mas essa decisão carrega riscos profundos.
Substituir um governador candidato à reeleição pode ser interpretado como traição interna — e partidos, especialmente os de forte identidade como o PT, costumam cobrar caro por esse tipo de movimento. Por outro lado, insistir em um nome com alta rejeição pode significar entregar o governo.
É o clássico dilema político:
perder com dignidade ou arriscar vencer com ruptura?
Wagner e Rui: o Senado como peça-chave
Enquanto o governo estadual vive turbulência, o PT demonstra força no Senado. Rui Costa (23,38%) e Jaques Wagner (19,23%) lideram o cenário para as duas vagas.
Esse dado é crucial por dois motivos:
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Mostra que o PT segue estruturalmente forte na Bahia, especialmente em eleições proporcionais.
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Reforça o papel estratégico de Wagner e Rui como fiadores políticos — não apenas de candidaturas, mas de decisões difíceis.
Em outras palavras: o futuro do governo estadual passa, inevitavelmente, pelas mãos desses dois atores.
Segurança, percepção e voto
Há ainda um fator silencioso, mas decisivo: a percepção de insegurança pública. Embora nem sempre capturada integralmente pelas pesquisas quantitativas, ela aparece com frequência no sentimento popular — e pode influenciar diretamente o comportamento do eleitor.
Eleições não são decididas apenas por números. São decididas por sensações acumuladas.
O que vem pela frente
A eleição baiana de 2026 ainda está longe de seu desfecho, mas uma coisa já é certa: o roteiro mudou.
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ACM Neto larga na frente, com força e margem.
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Jerônimo enfrenta desgaste e rejeição crescente.
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O PT está diante de uma decisão estratégica que pode definir não apenas uma eleição, mas um ciclo político.
E você, leitor, não está fora desse processo. Pelo contrário: está no centro dele.
Porque, no fim das contas, toda eleição é um espelho coletivo. E a pergunta que paira sobre a Bahia hoje não é apenas “quem vai ganhar?”, mas algo mais profundo:
que futuro o eleitor baiano está disposto a escolher — e a corrigir?
A resposta começa a ser dada agora. E, como mostram os números, ela pode surpreender mais uma vez.




