
A recente declaração do ministro da Casa Civil, Rui Costa, ao classificar como “ingratidão” a postura do prefeito de Jequié, Zé Cocá, revela muito mais do que um embate político localizado. Expõe, na verdade, uma visão ainda presente em parte da política brasileira: a de que investimentos públicos podem ser tratados como moeda de fidelidade política.
Ao afirmar que o prefeito não possui alcance fora de Jequié e rotular sua posição como ingrata diante do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ministro parece ignorar um princípio fundamental da democracia: o direito à divergência. Em um ambiente republicano saudável, alianças não são impostas — são construídas a partir de projetos, convicções e, sobretudo, da vontade popular.
A decisão de Zé Cocá de se manter na oposição e caminhar politicamente ao lado de ACM Neto não deve ser analisada sob a ótica da gratidão pessoal, mas sim da estratégia política e da coerência com o grupo ao qual pertence. A política não pode ser reduzida a uma lógica de “apoio em troca de benefícios”, sob pena de esvaziar completamente o sentido do mandato público.
Os recursos que chegaram a Jequié não são favores de governos ou de ministros. São direitos do povo. São frutos dos impostos pagos pela população, que retorna — ou deveria retornar — em forma de investimentos, obras e políticas públicas. Quando um agente público sugere, ainda que indiretamente, que tais conquistas estão condicionadas a alinhamentos políticos, o que se coloca em risco é o próprio conceito de Estado republicano.
Mais grave ainda é que Jequié, historicamente marcada por desafios sociais profundos — incluindo o estigma de violência que já lhe foi atribuído —, não pode ter seu desenvolvimento tratado como concessão política. As melhorias, ainda que importantes, foram insuficientes para transformar estruturalmente a realidade da cidade. Portanto, utilizá-las como argumento de cobrança política soa desproporcional e, no mínimo, inadequado.
A fala do ministro também levanta um debate essencial para o cenário baiano: até que ponto lideranças políticas aceitam a autonomia de novos atores? Ao desqualificar a projeção de Zé Cocá, reduzindo sua influência ao âmbito municipal, há uma tentativa clara de delimitar espaços de poder — como se a política fosse um território fechado, onde poucos podem ascender.
Mas a história recente mostra o contrário. Lideranças emergem, se consolidam e rompem barreiras justamente quando desafiam estruturas estabelecidas. A possível composição de Cocá em uma chapa liderada por ACM Neto não é apenas um movimento eleitoral; é um sinal de rearranjo político, de busca por novos caminhos e de reposicionamento estratégico.
No fundo, o episódio nos convida a uma reflexão mais ampla: a democracia não se sustenta na gratidão, mas na liberdade. Liberdade de escolha, de posicionamento e, principalmente, de representação. Quando essa liberdade é questionada, ainda que sob o discurso de reconhecimento, o que se revela é um desconforto com o pluralismo — elemento essencial de qualquer sociedade democrática.
Jequié não deve gratidão. Deve, sim, exigir mais. Mais investimentos, mais segurança, mais desenvolvimento. E seus representantes têm o direito — e o dever — de buscar os caminhos que julgarem mais adequados para alcançar esses objetivos, independentemente de pressões ou narrativas que tentem reduzir a política a um jogo de lealdades pessoais.
Porque, no fim das contas, a política que se orienta por favores enfraquece a cidadania. E a política que respeita escolhas fortalece a democracia.




