Política e Resenha

O Olho do Furacão: Memórias de uma Geração Teológica

 

Por Padre Carlos


Há memórias que não envelhecem. Ficam guardadas num lugar especial da consciência, entre o cheiro de livros antigos e o calor de debates que pareciam capazes de mover o mundo. Sou de uma geração de teólogos que não apenas estudou teologia — viveu-a. E havia uma diferença enorme entre as duas coisas.

Eram os anos áureos da Teologia da Libertação. O ar que se respirava nos corredores das faculdades não era comum: era denso de urgência, de profecia, de indignação santa. Nós não líamos Medellin e Puebla como quem lê história — líamos como quem recebe um mandato. Não comentávamos Gustavo Gutiérrez, Leonardo Boff ou Jon Sobrino como exercício acadêmico — debatíamos como quem discute o destino dos pobres, porque era exatamente disso que se tratava.

E no centro desse turbilhão, o olho do furacão, estava Belo Horizonte.


A Cidade que Pensou o Brasil

Quem não viveu aquela Belo Horizonte teológica não pode imaginar o que era. A cidade mineira se tornara, naquelas décadas decisivas, uma espécie de Atenas latino-americana da fé comprometida. Havia algo no ar das Minas Gerais — talvez o peso das pedras barrocas, talvez a memória de Tiradentes — que predispunha ao inconformismo, à ruptura criativa com o status quo.

As discussões que eu presenciei naqueles anos não cabiam em salas de aula. Transbordavam para os corredores, para os refeitórios, para as noites longas de partilha e oração. Havia uma sensação coletiva, quase física, de que estávamos diante de um momento único na história da Igreja.

E estávamos.


Comblin e os Outros: Mestres do Chão

Folheando hoje as páginas amareladas de um livro de José Comblin — esse belga extraordinário que escolheu o Brasil como pátria e foi expulso por isso em 1972, como se a verdade pudesse ser deportada —, eu me reencontro com a fermentação daquele tempo.

Comblin não escrevia de gabinete. Escrevia do meio dos agricultores do Nordeste. Sua antropologia teológica não era especulação abstrata: era carne, suor e luta. Ele nos ensinava que “todos os caminhos da Igreja conduzem ao homem” — e que esse homem tinha endereço certo: as periferias, os sem-terra, os invisíveis da história.

Era essa a grande virada. A teologia deixava de ser arquitetura de conceitos para se tornar diagnóstico da realidade e projeto de libertação. O pobre deixava de ser objeto de caridade para se tornar sujeito da história e destinatário privilegiado do Evangelho.


O Turbilhão por Dentro

Preciso ser honesto: não era fácil viver dentro daquele furacão. Havia tensões imensas — com a hierarquia eclesiástica, com o regime militar ainda presente como sombra, com as próprias correntes internas do movimento. Discutíamos acaloradamente se a teologia devia ser síntese das ciências humanas, se devia oferecer uma teoria geral da libertação, se devia liderar processos políticos.

Comblin nos advertia com clareza: nem o cristianismo, nem a Igreja, nem a teologia receberam a missão de planejar a libertação da humanidade. Eles têm um papel dentro dela, a seu serviço — mas Deus não lhes confiou a missão de liderar ou controlar o processo histórico. Era uma lição de humildade profética que nem todos queriam ouvir.

E talvez aí esteja uma das chaves para entender tanto o que aquela geração construiu quanto o que não conseguiu sustentar.


O que Ficou

Décadas depois, com o cabelo branco e o coração ainda inquieto, pergunto-me: o que restou daquele furacão?

Restou, em primeiro lugar, a opção pelos pobres — que não é uma bandeira política, mas uma exigência evangélica irrenunciável. Nenhum papa, nenhum documento, nenhuma restauração conseguiu apagar do Evangelho a preferência de Jesus pelos pequenos.

Restou a convicção de que a evangelização não é transmissão de doutrinas, mas criação de comunidades vivas que agem no mundo. Como dizia Comblin, o agir das comunidades cristãs no meio do mundo é a contribuição cristã à libertação — não as palavras, mas a presença encarnada.

Restou também a ferida: a consciência de que muito ficou incompleto, que alguns caminhos foram fechados antes do tempo, que houve perdas dolorosas no diálogo com Roma, e que talvez tenhamos subestimado a dimensão espiritual enquanto supervalorizávamos a análise social.


Uma Geração que Vale a Pena Contar

Há gerações que passam pela história sem deixar rastro. A nossa não. Para o bem e para o mal, os teólogos da libertação deixaram uma marca indelével na Igreja latino-americana e no pensamento cristão mundial.

O Papa Francisco — ele mesmo filho espiritual desse tempo, mesmo que por caminhos próprios — é, em certa medida, a confirmação de que aquelas sementes não morreram. Quando ele fala de uma “Igreja em saída”, de uma “opção pelos pobres que não pode ser ideológica mas existencial”, está bebendo, conscientemente ou não, das fontes que brotaram naquele furacão.

E Belo Horizonte, cidade de meu encontro com o pensamento mais vivo de minha época, guarda ainda, em suas igrejas e comunidades, os ecos daquele vento que passou — e que, quem sabe, ainda está passando.


Padre Carlos escreve da Bahia, com a memória do que foi e a esperança do que ainda pode ser.


“O que é que os cristãos têm para dizer aos homens de hoje sobre a libertação da humanidade? Nada mais e nada menos que o que eles são e fazem.” — José Comblin