
(Padre Carlos)
Há partidos que existem nos registros da história. E há partidos que existem na carne viva do povo.
O Partido Comunista do Brasil — o velho e combativo PCdoB — completa 104 anos. E não se trata apenas de uma data. Trata-se de uma travessia. De uma resistência. De uma memória que insiste em não morrer.
Nascido como dissidência do PCB, muitos poderiam, ao olhar apressado, reduzir sua história a uma ruptura. Mas não. O que ali se ergueu foi continuidade. Foi a recusa em abandonar o fio da história, a tradição da luta comunista no Brasil, o compromisso radical com o sonho de justiça social.
O PCdoB não é apenas um partido. É uma ideia que atravessou o século enfrentando prisões, perseguições, clandestinidade e morte.
E eu sei disso não por ouvir dizer.
Foi ali, naquele partido, que dei meus primeiros passos de militância. Era jovem. Tinha mais perguntas que respostas, mas carregava dentro de mim uma inquietação profunda diante das injustiças do mundo. O PCdoB me deu linguagem, me deu horizonte, me deu causa.
Ali aprendi que política não é apenas disputa de poder — é, antes de tudo, compromisso com os que nada têm.
Celebrar os 104 anos do PCdoB é, portanto, celebrar homens e mulheres que ofereceram o que tinham de mais precioso: o tempo da vida.
Quantos deixaram para trás suas famílias, seus sonhos pessoais, suas juventudes? Quantos trocaram o conforto possível pela dureza da luta clandestina? Quantos aceitaram o risco permanente de desaparecer?
E quantos, de fato, desapareceram.
É impossível falar dessa história sem que o coração se aperte ao lembrar da Guerrilha do Araguaia. Ali, nas matas densas e silenciosas, jovens brasileiros escreveram uma das páginas mais duras e mais belas da resistência à ditadura militar.
Eles sabiam dos riscos.
Sabiam que poderiam não voltar.
E mesmo assim foram.
Porque acreditavam.
Acreditavam que o Brasil poderia ser mais justo. Que o povo poderia viver com dignidade. Que o socialismo não era apenas uma teoria — mas uma necessidade histórica diante da desigualdade brutal.
Muitos tombaram.
Outros foram engolidos pelas masmorras da ditadura, onde o silêncio era imposto à força, onde a dor não tinha testemunhas, onde o corpo era tratado como território de punição.
Mas há algo que a repressão nunca conseguiu destruir: a memória.
E é essa memória que hoje se levanta.
Não apenas dos nomes conhecidos, que a história, aos poucos, começa a reconhecer. Mas, sobretudo, dos anônimos.
Dos sindicalistas que organizaram greves quando tudo parecia impossível.
Dos estudantes que enfrentaram cassetetes e censura.
Dos trabalhadores que, mesmo sem nunca aparecerem em livros, sustentaram com suas mãos a esperança de um país diferente.
O partido são eles.
O partido sempre foi eles.
Celebrar o PCdoB é, no fundo, celebrar essa gente — essa multidão silenciosa que acreditou quando acreditar era perigoso.
Num tempo em que a política muitas vezes se reduz ao imediato, ao cálculo, à conveniência, olhar para essa trajetória é quase um ato de resistência moral.
Porque nos lembra que houve — e ainda há — quem esteja disposto a lutar por algo maior do que si mesmo.
Hoje, talvez os tempos sejam outros. As formas de luta mudaram. As bandeiras se reorganizam. As palavras ganham novos sentidos.
Mas há algo que permanece.
A chama.
Uma chama que não pertence a um partido apenas, mas a todos aqueles que recusam a injustiça como destino.
A todos aqueles que acreditam que o Brasil pode ser mais do que desigualdade, mais do que privilégio, mais do que abandono.
Aos 104 anos do PCdoB, não celebramos apenas uma sigla.
Celebramos uma história de coragem.
Celebramos uma tradição de luta.
Celebramos, sobretudo, aqueles que viveram — e morreram — acreditando que um outro mundo era possível.
E, enquanto houver memória, eles não terão sido em vão.




