Política e Resenha

Antonina: Quando o Amor Se Torna Presença Eterna

 

 

Edvaldo Araujo

 

Vou lhe dizer algo baixinho… quase como quem confidencia um segredo:

há pessoas que não passam pela vida — elas permanecem.

Minha comadre Antonina é assim.

E não, eu não uso o verbo no passado por descuido. Uso por convicção.

Porque há existências que não cabem dentro da palavra “fim”.

Antonina nunca foi apenas alguém querida. Ela era dessas presenças que aquecem antes mesmo de falar. Havia nela um tipo raro de generosidade — aquela que não se anuncia, não se exibe, simplesmente acontece.

Você chegava… e já era esperado.

Nem precisava avisar. A casa dela parecia saber.

A mesa posta. O convite inevitável: “vem almoçar”. E não era um gesto protocolar. Era afeto servido quente, temperado com cuidado, com escuta, com tempo.

Sim… tempo.

Num mundo onde tudo corre, Antonina fazia o milagre de desacelerar a vida ao seu redor.

E talvez seja por isso que, ontem, o tempo parou.

No velório, a pequena distância entre sua casa e a casa paroquial parecia simbólica — como se a fé, que ela cultivou com gestos simples, tivesse agora decidido caminhar ao seu lado.

Os padres vieram.

Três… talvez quatro.

E não vieram apenas cumprir um rito. Vieram testemunhar.

Um a um, deram seus depoimentos. E havia algo em comum em cada palavra: reconhecimento.

Disseram que ela era um ícone.

Não de discursos. Não de cargos. Mas do essencial — o cuidado.

Era ela quem acolhia. Quem chamava para o almoço. Quem fazia da mesa um altar cotidiano. Quem cuidava dos padres como quem entende que servir também é uma forma de amar a Deus.

E ali, naquele ambiente carregado de silêncio e memória, não se via apenas dor.

Via-se gratidão.

Profunda. Coletiva. Incontestável.

Quando o corpo saiu, algo extraordinário aconteceu.

A rua se encheu.

E então vieram os aplausos.

Não ensaiados. Não combinados.

Aplausos que nasciam do peito, atravessavam o choro e se transformavam em despedida… ou melhor, em reconhecimento.

Porque aquilo não era um adeus comum.

Era um “obrigado por tudo”.

E no meio daquele cenário, entre lágrimas e fé, alguém — um rapaz simples, talvez embriagado, talvez apenas tomado pela emoção — disse algo que ninguém conseguiu esquecer:

“Eu queria fazer essa viagem com ela.”

E veja… há verdades que só aparecem quando as defesas caem.

Aquela frase, crua, humana, imperfeita… dizia tudo.

Porque quem foi amado assim, não vai sozinho.

Leva consigo pedaços de todos nós.

E deixa… deixa marcas que o tempo não apaga.

Hoje, eu sinto.

Sinto no peito essa mistura estranha de dor e paz. Meus olhos se enchem, sim. A saudade chega sem pedir licença. Mas não é uma saudade vazia.

É uma saudade cheia de presença.

Cheia do som das conversas. Do cheiro da comida. Do calor da acolhida. Do gesto simples de quem sabia fazer o outro se sentir importante.

Antonina não era apenas uma pessoa boa.

Ela era uma experiência de amor.

E talvez seja isso que mais incomode a lógica fria da vida: o amor não morre.

Ele muda de lugar.

Sai da matéria… e se instala na memória, nos gestos que aprendemos, nas histórias que contamos, nos olhos dos filhos, dos netos, dos bisnetos.

Permanece.

Por isso, me recuso a chamá-la de ausência.

Antonina, minha comadre, continua sendo presença.

Presença no que somos hoje.

Presença no que ainda seremos.

E se me permitem terminar como comecei…

em tom de sussurro:

há pessoas que o mundo não perde.

O mundo guarda.

E Antonina… ah, Antonina…

o mundo guardou em forma de amor.