Política e Resenha

O GÓLGOTA (Padre Carlos)

 

O GÓLGOTA

Ele sobe.
Não há mais caminho —
há apenas altura e peso.

A terra já não sustenta,
o céu já não responde,
e entre ambos
um corpo vacila.

Jesus cai.
Não é uma queda —
é o mundo cedendo sob o próprio Criador.

Terceira vez.
E agora no alto.
No ponto onde tudo termina
e tudo começa a ser revelado.

Eis o lugar.

A eira terrível
onde o trigo de Deus é esmagado,
onde o pão da eternidade
é moído pela violência dos homens.

Aqui não se colhe —
aqui se consome.

Tudo foi tirado.
Tudo.

As vestes,
a dignidade visível,
a última fronteira entre o sagrado e o escárnio.

Ele está nu.

Nu como a verdade que ninguém suporta ver.
Nu como o amor quando não encontra resposta.
Nu como o princípio de tudo
antes que o mundo aprendesse a mentir.

O véu se rasga —
não apenas no templo,
mas no coração do invisível.

Deus já não se esconde.

E o homem,
cego de poder e ignorância,
ergue a mão
contra Aquele que o sustenta.

A mão levanta-se contra Deus.

E a carne —
essa carne que veio d’Ele,
essa carne que respira por Ele —
treme.

Treme como um filho que reconhece,
tarde demais,
o rosto do Pai na vítima.

O universo sente.

Há um estremecimento profundo,
um abalo sem som,
como se a própria criação
fosse atingida na raiz.

As estrelas hesitam,
a luz se contrai,
e o tempo —
o tempo parece prender a respiração.

Tudo converge para este instante.

Nada Lhe resta.

Nenhuma defesa.
Nenhuma palavra que detenha.
Nenhum gesto que recuse.

Ele está entregue.

Não como quem perde —
mas como quem oferece.

Exposto,
abandonado,
rasgado entre o céu silencioso
e a terra que condena.

E, no entanto —

há uma força que não se quebra.

Uma vontade que não recua.
Um amor que não se retrai
nem diante do absurdo.

Ele permanece.

Não por si,
mas por todos.

Não para escapar,
mas para atravessar.

E no ponto mais alto da dor,
onde tudo parece ausência,
onde Deus parece ter se retirado —

é ali
que Ele se revela inteiro.

Não no poder,
não no milagre,
não na glória visível —

mas na entrega absoluta.

O Gólgota não é o fim.

É o instante em que o amor
aceita ser destruído
para que nada mais precise morrer sem sentido.

E o silêncio que cai sobre o mundo
não é vazio —

é espera.

Porque mesmo ali,
no corpo exausto,
na carne aberta,
na nudez exposta ao desprezo —

a eternidade já começa
a respirar.