
Padre Carlos
Há momentos em que uma cidade revela, de forma brutal, suas fragilidades. Em Vitória da Conquista, basta uma chuva de 20 milímetros para que ruas se transformem em rios improvisados, comércios fechem as portas e famílias assistam, impotentes, à água invadir seus lares. Não é apenas um problema climático — é, sobretudo, um problema de gestão, planejamento e prioridade política.
É nesse cenário que emerge a fala do pré-candidato a deputado estadual Quinho Tigre, em entrevista ao podcast IB Política. E o que poderia ser apenas mais um discurso eleitoral revela, na verdade, algo mais profundo: uma leitura estratégica da cidade e uma compreensão rara do papel do poder público.
Quinho parte de um ponto essencial que muitos gestores ignoram: drenagem urbana não é obra invisível — é dignidade. Ao defender investimentos em galerias pluviais e obras estruturantes, ele toca no coração de um dos maiores gargalos das cidades médias brasileiras. Não há desenvolvimento possível onde a infraestrutura básica falha.
Mas é na ousadia da proposta que sua visão se diferencia. Ao sugerir a criação de uma barragem na Serra do Periperi, o pré-candidato rompe com a lógica tradicional de apenas “remediar” os efeitos da chuva. Ele propõe atuar na origem do problema, controlando o fluxo das águas antes que elas desçam com força destrutiva sobre a malha urbana.
Essa ideia dialoga diretamente com experiências bem-sucedidas em outras regiões do mundo, onde o controle hídrico é tratado como política estratégica de longo prazo. Não se trata apenas de engenharia, mas de inteligência territorial.
Ao mencionar também o potencial do Poço Escuro, Quinho Tigre revela sensibilidade ambiental — outro ponto frequentemente negligenciado. A integração entre preservação ecológica e infraestrutura urbana é um dos pilares das cidades sustentáveis do século XXI. E isso não é retórica: é necessidade.
Talvez o trecho mais revelador de sua fala seja quando afirma que, se estivesse na condição de prefeito, priorizaria o investimento municipal em drenagem. Essa frase, simples à primeira vista, carrega um conceito fundamental de administração pública: governar é escolher prioridades.
E aqui reside a diferença entre o político comum e o gestor com visão estratégica. Enquanto muitos preferem obras visíveis, de impacto imediato e retorno eleitoral rápido, Quinho aponta para investimentos estruturais — aqueles que não rendem aplausos instantâneos, mas transformam a vida da população de forma duradoura.
Há, evidentemente, desafios. Projetos como uma barragem exigem estudos técnicos rigorosos, licenciamento ambiental, recursos significativos e articulação política. Mas é justamente aí que se testa a capacidade de liderança: transformar ideias em políticas públicas viáveis.
O que se vê, portanto, não é apenas um pré-candidato apresentando propostas, mas um agente político que compreende a cidade como um organismo complexo, que precisa ser pensado de forma sistêmica.
Num tempo em que a política muitas vezes se reduz a slogans e polarizações estéreis, a fala de Quinho Tigre aponta para outro caminho: o da política como planejamento, responsabilidade e visão de futuro.
Se Vitória da Conquista deseja deixar de temer a chuva e passar a conviver com ela de forma inteligente, será preciso mais do que promessas. Será necessário coragem para investir no que realmente importa — mesmo que isso não apareça nas fotos de campanha.
E, ao que tudo indica, há quem esteja disposto a iniciar esse debate com seriedade.




