
Há momentos na história em que a imprensa abandona o papel de observadora crítica e decide vestir, sem qualquer pudor, a fantasia de protagonista político. O recente editorial do Estadão contra Jorge Messias é um desses momentos constrangedores — daqueles que fariam corar até os mais cínicos operadores do poder.
Não se trata de jornalismo. Não se trata de análise. Trata-se de uma peça de militância política explícita, quase panfletária, que tenta constranger o Senado Federal a agir como extensão editorial de um jornal. Ora, desde quando um veículo de imprensa se arroga o direito de dizer que o Senado “tem o dever” de rejeitar uma indicação ao Supremo Tribunal Federal?
“Dever”? Dever com quem? Com a Constituição ou com a linha editorial da redação?
É aqui que o texto do jornal ultrapassa todos os limites — não apenas do bom senso, mas do próprio Estado Democrático de Direito.
A imprensa que cobra democracia, mas pratica pressão
O que mais impressiona — e revolta — é a contradição gritante. O mesmo Estadão que, em editoriais passados, se coloca como guardião das instituições, agora atua como agente de pressão direta sobre elas.
Vamos aos fatos — ou melhor, às falhas:
- Interferência indevida no processo institucional
Ao afirmar que o Senado “deve rejeitar” um nome, o jornal abandona a crítica e entra no campo da imposição política. - Quebra do princípio da imparcialidade
Editorial não é sentença. Opinião não pode se travestir de obrigação institucional. - Militância seletiva
Onde estava esse “rigor moral” em outras indicações ao STF? Ou ele só aparece conforme a conveniência ideológica? - Pressão pública como instrumento de poder
O texto tenta constranger senadores perante a opinião pública — uma forma indireta de chantagem política. - Deslegitimação antecipada
Antes mesmo de qualquer sabatina, o indicado já é tratado como inadequado. Baseado em quê? Em argumentos técnicos ou em preferências políticas?
Liberdade de imprensa não é licença para manipular
Sim, a imprensa é livre. E deve ser. Mas liberdade não é salvo-conduto para agir como partido político disfarçado.
Quando um jornal passa a atuar como ator político ativo, tentando influenciar decisões institucionais de forma direta, ele deixa de informar e passa a disputar poder. E isso muda completamente o jogo.
O problema não é criticar — criticar é saudável. O problema é querer substituir o processo democrático por uma vontade editorial.
E onde entra a responsabilidade?
Se há um ponto ainda mais grave, é o silêncio institucional diante desse tipo de postura. O Presidente da República indica, o Senado avalia — esse é o rito constitucional. Quando um órgão de imprensa tenta interferir nesse fluxo, ele não está apenas opinando: está tensionando o equilíbrio entre os Poderes.
E isso, sim, exige reflexão séria — inclusive jurídica.
Porque se amanhã cada grande veículo decidir “determinar” o que o Senado deve ou não fazer, estaremos diante de quê? De uma democracia ou de um editorialismo autoritário?
O perigo do jornal que se acha poder
O editorial do Estadão não é apenas um texto infeliz. É um sintoma.
Sintoma de uma imprensa que, em certos momentos, parece esquecer que sua força está na credibilidade — não na imposição.
E credibilidade não se constrói com ordens. Muito menos com ironias travestidas de autoridade moral.
Se há algo que precisa ser rejeitado — com urgência — não é um nome indicado ao STF.
É a ideia de que um jornal pode se colocar acima das instituições.
Porque quando isso acontece, não é apenas o jornalismo que perde.
É a própria democracia que começa a ser editada.




