Política e Resenha

ARTIGO — O EDITORIAL QUE RASGA A TOGA DA IMPRENSA (Padre Carlos)

 

 

 

 

Há momentos na história em que a imprensa abandona o papel de observadora crítica e decide vestir, sem qualquer pudor, a fantasia de protagonista político. O recente editorial do Estadão contra Jorge Messias é um desses momentos constrangedores — daqueles que fariam corar até os mais cínicos operadores do poder.

Não se trata de jornalismo. Não se trata de análise. Trata-se de uma peça de militância política explícita, quase panfletária, que tenta constranger o Senado Federal a agir como extensão editorial de um jornal. Ora, desde quando um veículo de imprensa se arroga o direito de dizer que o Senado “tem o dever” de rejeitar uma indicação ao Supremo Tribunal Federal?

“Dever”? Dever com quem? Com a Constituição ou com a linha editorial da redação?

É aqui que o texto do jornal ultrapassa todos os limites — não apenas do bom senso, mas do próprio Estado Democrático de Direito.

A imprensa que cobra democracia, mas pratica pressão

O que mais impressiona — e revolta — é a contradição gritante. O mesmo Estadão que, em editoriais passados, se coloca como guardião das instituições, agora atua como agente de pressão direta sobre elas.

Vamos aos fatos — ou melhor, às falhas:

  1. Interferência indevida no processo institucional
    Ao afirmar que o Senado “deve rejeitar” um nome, o jornal abandona a crítica e entra no campo da imposição política.
  2. Quebra do princípio da imparcialidade
    Editorial não é sentença. Opinião não pode se travestir de obrigação institucional.
  3. Militância seletiva
    Onde estava esse “rigor moral” em outras indicações ao STF? Ou ele só aparece conforme a conveniência ideológica?
  4. Pressão pública como instrumento de poder
    O texto tenta constranger senadores perante a opinião pública — uma forma indireta de chantagem política.
  5. Deslegitimação antecipada
    Antes mesmo de qualquer sabatina, o indicado já é tratado como inadequado. Baseado em quê? Em argumentos técnicos ou em preferências políticas?

Liberdade de imprensa não é licença para manipular

Sim, a imprensa é livre. E deve ser. Mas liberdade não é salvo-conduto para agir como partido político disfarçado.

Quando um jornal passa a atuar como ator político ativo, tentando influenciar decisões institucionais de forma direta, ele deixa de informar e passa a disputar poder. E isso muda completamente o jogo.

O problema não é criticar — criticar é saudável. O problema é querer substituir o processo democrático por uma vontade editorial.

E onde entra a responsabilidade?

Se há um ponto ainda mais grave, é o silêncio institucional diante desse tipo de postura. O Presidente da República indica, o Senado avalia — esse é o rito constitucional. Quando um órgão de imprensa tenta interferir nesse fluxo, ele não está apenas opinando: está tensionando o equilíbrio entre os Poderes.

E isso, sim, exige reflexão séria — inclusive jurídica.

Porque se amanhã cada grande veículo decidir “determinar” o que o Senado deve ou não fazer, estaremos diante de quê? De uma democracia ou de um editorialismo autoritário?

O perigo do jornal que se acha poder

O editorial do Estadão não é apenas um texto infeliz. É um sintoma.

Sintoma de uma imprensa que, em certos momentos, parece esquecer que sua força está na credibilidade — não na imposição.

E credibilidade não se constrói com ordens. Muito menos com ironias travestidas de autoridade moral.

Se há algo que precisa ser rejeitado — com urgência — não é um nome indicado ao STF.

É a ideia de que um jornal pode se colocar acima das instituições.

Porque quando isso acontece, não é apenas o jornalismo que perde.

É a própria democracia que começa a ser editada.