Política e Resenha

ENTRE A MESA E O ALTAR: A EUCARISTIA NÃO É UM OBJETO, É UM ACONTECIMENTO (Padre Carlos)

 

 

 

Há momentos na história da Igreja em que uma palavra soa como ruptura, mas na verdade é retorno. A fala de Dom José Ionilton Lisboa de Oliveira, na longínqua e simbólica ilha de Marajó, não é uma novidade perigosa — é um eco antigo. Um eco que atravessa os séculos, vindo das casas simples das primeiras comunidades cristãs, onde a fé não era espetáculo, mas mesa; não era distância, mas partilha.

Dizer que a Eucaristia “foi instituída para comer e beber, e não para adorar” soa, para muitos, como uma ousadia teológica. Mas o que está em jogo aqui não é negação da presença real de Cristo — como alguns apressadamente acusam —, mas a denúncia de um deslocamento histórico que, ao longo dos séculos, foi transformando a ceia em objeto, o mistério em coisa, o encontro em contemplação distante.

A verdade é desconfortável: a Igreja nem sempre celebrou a Eucaristia como hoje. Nos primeiros séculos, antes das grandes catedrais, antes das procissões triunfais, antes da teologia escolástica, a Eucaristia era vivida como um ato profundamente comunitário. Basta recordar a Didachê, um dos mais antigos documentos da tradição cristã, que apresenta a celebração eucarística como ação de graças comunitária, inseparável da partilha concreta da vida.

O próprio São Justino Mártir, ao descrever a liturgia cristã por volta do ano 150, não fala de adoração ao pão consagrado, mas de reunião, escuta da Palavra, oração comum e, sobretudo, da distribuição do pão e do vinho aos presentes — e até aos ausentes. A centralidade não era o olhar, era o comer. Não era o assistir, era o participar.

O que Dom Lonilton faz, portanto, é lembrar aquilo que muitos esqueceram: a Eucaristia é, antes de tudo, um mandato. “Tomai e comei.” “Bebei dele todos.” Não há, nos relatos da instituição, um convite à contemplação silenciosa do pão, mas um chamado à participação ativa no mistério da entrega.

É claro que a Igreja, ao longo da história, desenvolveu a doutrina da presença real — especialmente afirmada no Concílio de Trento — como resposta às crises e heresias. E fez bem. A fé católica não reduz a Eucaristia a símbolo vazio. Mas há um risco: quando a defesa da presença real se transforma em afastamento da mesa, cria-se uma espiritualidade paradoxal — onde se adora o Cristo presente, mas se evita recebê-lo.

E aqui está uma das críticas mais contundentes do bispo: o medo de comungar. Quantos fiéis, formados por uma catequese do temor, aproximam-se da Eucaristia como quem pisa em terreno proibido? Invocam a indignidade — apoiados em Primeira Carta aos Coríntios — mas esquecem que a advertência de Paulo não era contra a fragilidade humana, e sim contra a falta de comunhão real entre os irmãos. O pecado denunciado não era moralista — era social: comer sem partilhar, celebrar sem amar.

A Eucaristia, nesse sentido, não é prêmio para perfeitos, mas alimento para os que caminham.

E quanto à adoração? Aqui é preciso honestidade histórica. A prática da adoração eucarística fora da missa não pertence às origens do cristianismo. Ela se desenvolve na Idade Média, especialmente a partir do século XIII, com a instituição da festa de Corpus Christi e o crescimento da devoção ao Santíssimo Sacramento. Trata-se de um desenvolvimento legítimo da piedade — mas não da essência original do sacramento.

Dom José Ionilton não nega essa tradição — prova disso é que ele mesmo realizou a exposição do Santíssimo ao final da celebração. O que ele questiona é a inversão: quando a exceção se torna regra, e o centro — a comunhão — é substituído pela periferia — a contemplação.

O risco não é adorar demais. O risco é participar de menos.

A Eucaristia não foi instituída para ser assistida pela televisão, nem transformada em objeto de consumo devocional à distância. Ela é, por natureza, encarnação, encontro, presença concreta. Não há cristianismo sem corpo, sem mesa, sem comunidade.

O discurso do bispo, portanto, não é um ataque à tradição — é um chamado à sua purificação. Ele nos obriga a fazer a pergunta que evitamos: estamos vivendo a Eucaristia como Cristo quis, ou como nos acostumamos?

Entre o altar e a mesa, talvez tenhamos escolhido o caminho mais confortável. Mas o Evangelho nunca foi confortável.

E, no fim das contas, a provocação permanece como uma lâmina: de que adianta ajoelhar-se diante do pão consagrado, se não se tem coragem de sentar-se à mesa com os irmãos?