Política e Resenha

Entre Tiranos e Esperança: a Voz de Papa Leão XIV Ecoa na Assembleia dos Bispos do Brasil

 

Padre Carlos

 

Há algo de profundamente humano — e ao mesmo tempo dolorosamente frágil — no momento em que o mundo precisa ser lembrado de que a paz ainda é possível.

A mensagem de Papa Leão XIV aos bispos reunidos na 62ª Assembleia da CNBB não é apenas mais um documento protocolar. Ela carrega, nas entrelinhas, o peso de um grito antigo: o de uma humanidade que parece ter desaprendido a se reconhecer no outro.

Enquanto líderes políticos trocam acusações como se fossem moedas baratas — e aqui não se pode ignorar o tom inflamado de Donald Trump — o Papa escolhe um caminho mais difícil, quase contraintuitivo: o da insistência. Insistir na paz, hoje, é um ato de resistência.

E talvez seja justamente isso que mais desconcerta.

Vivemos tempos em que a brutalidade se tornou banal. As guerras não começam mais apenas com armas, mas com palavras. Com desumanizações sutis. Com a naturalização do ódio. Por isso, quando o pontífice afirma que “a verdadeira paz não significa ausência de conflitos”, ele nos desloca de uma ingenuidade confortável para uma responsabilidade incômoda. Paz não é silêncio — é construção. É esforço. É escolha diária.

Ao evocar Nossa Senhora Aparecida, o Papa não fala apenas à fé dos brasileiros, mas à memória afetiva de um povo que aprendeu, entre dores e resistências, a encontrar sentido mesmo nas adversidades. Há um simbolismo poderoso nisso: lembrar que a esperança, para existir, precisa ser cultivada — quase como quem protege uma chama em meio ao vento.

E quando ele retoma os ensinamentos da encíclica Fratelli Tutti, de Papa Francisco, reafirma algo que deveria ser óbvio, mas já não é: somos iguais em dignidade. Parece simples. Mas, no mundo real, essa ideia tem sido sistematicamente negada — nas fronteiras fechadas, nas guerras esquecidas, nas desigualdades que insistem em se perpetuar.

O mais inquietante é perceber que o apelo do Papa não se dirige apenas aos bispos, nem apenas aos líderes das nações. Ele nos atravessa. Porque, no fundo, a paz que ele reivindica não será decretada em assembleias, nem assinada em tratados — ela começa no reconhecimento do outro no cotidiano, na recusa em transformar diferenças em inimigos.

Há também, na crítica feita aos “punhados de tiranos”, uma coragem rara em tempos diplomáticos. Nomear o problema é o primeiro passo para enfrentá-lo. Mas isso cobra um preço: o de se tornar alvo de ataques, como os que vieram do cenário político internacional. Ainda assim, o Papa segue. Porque há momentos em que o silêncio não é prudência — é omissão.

Talvez o ponto mais sensível dessa mensagem seja justamente o mais desconfortável: nós nos acostumamos à guerra. Não necessariamente à guerra das trincheiras, mas à guerra cotidiana — nas redes sociais, nas ruas, nas relações. E quando a violência se torna linguagem, a paz passa a soar quase como uma utopia ingênua.

Mas e se não for?

E se insistir na paz for, na verdade, o gesto mais lúcido que ainda nos resta?

A assembleia em Aparecida, nesse contexto, deixa de ser apenas um encontro institucional e se transforma em símbolo: o de um país — e, por extensão, de um mundo — que ainda busca respostas para o seu próprio desencontro.

No fim, a mensagem de Papa Leão XIV não oferece soluções fáceis. E talvez essa seja sua maior honestidade. Ela oferece algo mais raro: um convite.

Um convite a reaprender o básico.
A olhar o outro sem medo.
A discordar sem destruir.
A existir sem anular.

Num tempo em que tudo grita, ele escolhe lembrar: a paz não é ausência de voz — é a escolha de não transformar a voz em arma.