Política e Resenha

Um Ano Sem Francisco


Opinião · Igreja & Sociedade

Um Ano Sem Francisco

e a saudade que a Igreja ainda não sabe nomear

por Padre Carlos  ·  Vitória da Conquista, Bahia  ·  21 de abril de 2026

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Havia uma quietude estranha naquela manhã de 21 de abril de 2025. O mundo ainda dormia o sono pesado do dia seguinte à Páscoa quando um jornalista, num post de despedida lançado à rede como quem solta um pombo ao vento — “Adeus, padre” —, anunciou o que muitos temiam e poucos estavam prontos para receber. Três minutos depois, o Vaticano confirmava: Francisco havia “voltado à casa do Pai”.

Três minutos. É quanto tempo leva para o mundo mudar de eixo.

Penso nisso hoje, um ano depois, enquanto a Igreja celebra uma missa diante do túmulo de Francisco na Basílica de Santa Maria Maior — e o seu sucessor, Leão XIV, percorre o continente africano, como quem continua uma obra que não terminou, porque obras assim não terminam. Penso nisso e me pego fazendo uma pergunta que não é apenas teológica, mas profundamente humana: o que fazemos com a saudade de um homem que não foi apenas papa, mas foi — ousemos a palavra — testemunha?

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Suas últimas palavras foram pedindo água. “Obrigado, desculpe o incômodo”, disse Francisco ao enfermeiro de plantão, às cinco da manhã, enquanto o corpo já cedia ao que o espírito tentava resistir. Há algo de desconcertante e ao mesmo tempo absolutamente coerente nessa despedida. Um homem que passou doze anos pedindo à Igreja que servisse, que se curvasse, que lavasse os pés — e não os seus próprios —, saiu do mundo pedindo desculpas por pedir água. Como se até no último ato quisesse lembrar que ninguém deve ser fardo para ninguém.

“Não consigo ler isso sem sentir o peso de uma vida inteira de coerência.”

E coerência, meus irmãos e minhas irmãs leitoras, é a virtude mais rara e mais cara que existe. Muito mais rara do que genialidade. Muito mais cara do que poder.

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O jornalista Salvatore Cernuzio, que esteve com Francisco cinco dias antes da morte e acaba de lançar um livro sobre o pontificado, descreve sua relação com o papa como “a de um avô e um neto, um filho e um pai”. Há uma ternura nessa descrição que me interessa mais do que qualquer análise geopolítica da Igreja. Porque Francisco foi isso: foi capaz de criar laços. Num mundo de instituições frias, de protocolos que constroem distância onde deveria haver encontro, ele criou laços.

Foi essa capacidade que fez de seu pontificado, nas palavras do mesmo jornalista, “um divisor de águas”. Não um divisor de águas porque mudou doutrinas — isso, aliás, foi o que seus críticos mais temeram e o que ele mais recusou fazer de forma unilateral. Mas um divisor de águas porque mudou o tom. Mudou a postura. Abriu janelas para que entrasse ar limpo.

E ar limpo, numa Igreja que sufocava sob o peso de décadas de silêncio sobre abusos, era uma necessidade de sobrevivência.

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Aqui preciso ser honesto, como se deve ser quando se escreve não para agradar, mas para testemunhar.

Francisco não resolveu a crise dos abusos na Igreja. Ninguém resolve uma ferida de séculos em doze anos. Mas ele fez algo que seus antecessores recusaram fazer: nomeou a ferida. Criou legislação. Exigiu denúncias. Mandou embora bispos poderosos. E isso custou — custou inimigas dentro da própria casa, custou acusações de ruptura, custou a frieza calculada daqueles que preferem a omissão ao escândalo de uma reforma que lhes retira privilégios.

A ala conservadora da Igreja chegou a ver o processo sinodal — aquele esforço corajoso e imperfeito de chamar leigos, religiosas e clérigos para debater o futuro da Igreja — como um risco de cisma. Que curioso: os guardiões da unidade que só suportam a unidade quando ela lhes é favorável.

Francisco suportou isso. Suportou as cartas abertas, os dubia, os rostos carrancudos dos purpurados que discordavam em silêncio cerimonioso e discordavam em voz alta nos corredores do poder. E continuou caminhando — com a perna que doía, com os pulmões que cediam, com a idade que pesava.

“Isso se chama profecia. Não a profecia dos oráculos e das visões, mas a profecia dos que enxergam mais longe do que os seus contemporâneos permitem e pagam o preço de enxergar.”

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Fico pensando no cardeal Robert Prevost — hoje Leão XIV —, que Francisco descreveu ao jornalista com uma só frase: “Ele? Ele é um santo.” E explicou o que isso significava para ele: alguém capaz de “lidar serenamente com confrontos, tensões, situações intrincadas” e de “criar comunhão”.

Não um santo de altar, imóvel e distante. Um santo que sabe estar no meio da confusão sem se perder. Um santo que cria pontes onde outros veem abismos.

A Igreja que Francisco nos deixou precisa exatamente disso. Porque o mundo de hoje — com suas guerras, com seu ódio organizado em redes, com seus líderes que transformaram a ira em programa de governo — não precisa de uma Igreja que responda com a rigidez dos vencedores. Precisa de uma Igreja que responda com a serenidade dos que foram feridos e não se endureceram.

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Um ano. Já faz um ano.

Na Casa Santa Marta, o quarto está vazio. O túmulo em Santa Maria Maior recebe flores e orações de peregrinos que vieram de muito longe para se despedir de alguém que nunca conheceram pessoalmente e sentiram, ainda assim, como alguém de família. Isso é o que os grandes fazem: criam o impossível parentesco entre estranhos.

Guardo de Francisco — e isso é pessoal, é meu, é a fala de um padre mesmo não estando exercendo o ministério no momento na cidade do interior da Bahia que nunca o viu de perto mas o leu com atenção e o rezou com frequência — guardo a coragem de ser simples. A coragem de dizer que a Igreja é de todos e que “todos” significa todos. A coragem de lavar os pés de prisioneiros e de parar o carro para cumprimentar os sem-teto. A coragem de pedir desculpas. De pedir água. De morrer sem fazer barulho, numa manhã de segunda-feira, deixando o mundo com uma tarefa maior do que qualquer um gostaria de ter.

A tarefa de continuar.

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Francisco não nos deixou um programa. Nos deixou um espelho.

E a pergunta que o espelho faz é sempre a mesma, e é sempre incômoda:

Quem você escolhe ser?

Padre Carlos

Teólogo · Colunista · Vitória da Conquista, Bahia

Política e Resenha · 21 de abril de 2026